terça-feira, 17 de novembro de 2009

Secondhand Sureshots!

dublab presents...SECONDHAND SURESHOTS (preview) from dublab on Vimeo.


Quero ir viver para Los Angeles...

Oh No na Etiópia



And it don't stop! Oh No já investigou o psych turco, agora atira-se à colecção de ethio jazz de Egon. O resultado é este. Depois da World Music o world sampling? Conceito a desenvolver por aqui em breve, agora que os diggers parecem explorar outras avenidas (o psych turco ou tailandês e os grooves africanos são apenas o começo!).

When we announced an advance digital release of Ethiopium last September, little did we know that Oh No would not bring himself to finish work on the album for a few more weeks. What we have now is a newly completed and expanded 36-track version of Ethiopium. The CD is available exclusively at Stones Throw, and will be released worldwide on CD and vinyl in coming weeks.

Oh No created Ethiopium with help from Egon's record collection, inspired-by and sampled-from rare 60s and 70s Ethiopian funk, jazz, folk, soul and psychedelic rock. It is the followup to his 2007 album Dr. No's Oxperiment, the Turkish and Lebanese-inspired instrumental beat album.


Ouvir aqui.

Gainsbourg no grande ecrã


Looking good! Sai em 2010.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Os discos e a ilha deserta


Não tenho a certeza absoluta de ser sempre entendido quando digo que por vezes o espaço que separa dois discos - ainda que seja em termos aristotélicos infinitamente pequeno (ver imagem acima) - pode ser tão revelador como os próprios discos em causa. O que falta diz tanto como o que está, penso eu, não só por causa das relações que estabelecemos entre os discos e que os levam a partilhar espaço (e que nunca é tão simplista ao ponto de ser meramente alfabética - os meus discos de Karen Dalton estão na secção de soul, mas os de Vashti Bunyan estão na estante do PopProgFolkRock...), mas também porque no meio, invisiveis, estão todos os discos que ainda planeamos adquirir. Por isso, a minha colecção de discos ajuda a definir-me, claro, mas não completamente pois nada diz dos meus desejos, dos meus objectivos pessoais a alcançar. Vem tudo isto a propósito de quase nada, mas um quase nada que nos últimos tempos me fez perder alguns minutos de sono (não muitos, que durmo bem, obrigado): os discos que proverbialmente nos acompanhariam para a ilha deserta (equipada com ar condicionado e sistema de som, como é óbvio).

O conceito de Discos Que se Levariam Para Uma Ilha Deserta simplesmente não faz sentido, a menos que se pudessem levar todos os discos para uma ilha deserta. E mesmo assim seria uma ilha estúpida, sem gente, sem filmes, sem livros, sem lojas de vinhos e museus. Mas levemos a sério o conceito - 100 Discos A Que Se Resumiria Uma Colecção, porque é disso que se trata quando se evoca a tal ideia absurda da ilha deserta, penso eu. 100 ou 10 ou 1000. Não faz diferença para o caso. Porque, e esta foi a conclusão a que cheguei durante os tais minutos roubados ao sono, se eu só pudesse ouvir esses 100 discos (ou 10 ou... já perceberam a ideia) a minha vida seria muito aborrecida.

Vejamos o caso de Madlib: recentemente dei conta por aqui dos planos do produtor para um ano recheado de edições. Não tardou para que fóruns como o Soulstrut se agitassem - que o homem é doido, que já não há paciência, que nem ele será capaz de fazer 12 edições relevantes. E toda essa gente perde o ponto (misses the point, em inglês): Madlib sabe certamente que não vai editar 12 desses discos da ilha deserta. O que ele vai fazer é abrir-nos as portas para o seu pensamento criativo, vai permitir que ouçamos as falhas, os acertos, e todos os gestos intermédios. O que nos traz de volta à questão dos discos da ilha deserta. Eu sei que o que faz brilhar a discografia de Marvin ou de JB são os incontáveis discos de soul que são menores porque a história ou o tempo ou as condições em que foram originalmente gravados ou o talento dos seus intervenientes não lhes fizeram justiça. Mas a soul - ou o rock, ou o jazz ou qualquer outra coisa - só faz sentido com esse corpo imenso de tentativas e erros. A minha colecção está muito depurada por anos e anos de trocas, presentes dados a amigos, discos vendidos no eBay ou na Cash Converters, outros que se perderam ou de que se deixou de gostar. Já a espremi de todas as maneiras e feitios. E, ainda assim, não fiquei apenas com obras primas. Longe, tão longe disso. Mas todos os discos que resistiram ao tempo e às purgas alcançaram essa proeza por uma qualquer razão. Porque contêm neles pormenores que enaltecem outros discos, por exemplo: o primeiro disco pop onde se usou o som da sitar indiana, mas que não chega aos calcanhares do «Tomorrow Never Knows», ou as primeiras tentativas de enquadrar a síntese em temas pop com discos Moog que tentavam dar uma roupagem inocentemente electrónica a clássicos do country ou da Broadway ou algo igualmente palerma. Discos que falharam tremendamente, mas que ainda assim conseguiram a proeza de preparar caminho, de apontar pistas e estratégias, de experimentar novas abordagens técnicas. De arriscar, enfim. Um pouco como o piloto de Fórmula 1 cujo papel é ficar sempre em segundo, abrindo caminho para a estrela da equipa. Levar apenas 100 discos para a ilha e esquecer estas modestas candidaturas à eternidade (ou a um lugar no Top 20) seria um erro tremendo. Dizem os sábios que mais importante do que chegar ao destino é ir caminhando, ideia que parece ter sido feita à medida de quem colecciona discos (ou outra coisa qualquer). Mais importante do que chegar à ilha deserta com 100 discos debaixo do braço (continuo a pensar como é que lá se chegaria, como é que se protegeriam esses 100 discos do sal, da água, do sol, da queda imprevisivel de côcos...) é o percurso por todas as lojas/sites/feiras/casas de amigos que nos leva a encontrar esses discos e a estabelecer entre eles relações dificeis de explicar (os tais espaços que os separam). E igualmente mais importante do que chegar ao destino é continuar a caminhar, a procurar novas coisas que se possam intrometer entre os discos da foto, obrigá-los a mudar de sítio, fazê-los perder o estatuto que agora possuem nas nossas colecções, ou iluminá-los de uma forma que não julgávamos possível. Em vez de levar discos para a ilha deserta, preferia mesmo trazer a ilha deserta para perto de casa. Na verdade, a minha sala de discos é uma espécie de ilha deserta, mas cheia de discos, onde estão os 100 que outros levariam para um sítio qualquer e os restantes 9 mil e 900 (ou algo assim) de que eu também gosto.

O coleccionador de soul

Wallifornia Soul from Laid Back on Vimeo.


Do belíssimo blog Laid Back que é programa de rádio e fonte de informação bastante generosa:

After meeting record collector Jean Roger aka JR on a flea market, Eric invited him in the FM Brussel studio for a Laid Back session (October 2008) … Blown away by his stories and musical knowledge, we decided to meet him again to discuss about music, records, travels and life in general. More than a crate digger, JR is a man who follows his heart in order to achieve his dreams.

Working on our first 15 minutes documentary was a hell of a DIY learning experience but we made it.

Thank you to Jérôme ‘Djé” Escobar for the introduction animation, Matthieu “Maty” Cadet for the colour grading, Louis “LuiGi” Van De Leest for filming and Eric Paquet for not only editing it but for taking care of this project from day one. A special big up to Noah Greenwood for hooking us up with Aki from Cosmos Records in Toronto.

Let’s hope this is only the first in a long series.

Low End Theory Podcast # 9


Nova dose de pressões mais baixas do que a auto-estima dos jogadores da nossa selecção e mais dilatadas do que a dívida externa de Portugal. Batidas cortantes, baixos carregados, sinuosidades imprevisiveis, enfim, tudo aquilo a que a marca Low End Theory já nos habituou:

Well worth the wait, this month's Low End Theory podcast is truly something special. Low End Theory resident Daddy Kev is paired with reigning L.A. beat battle champion Dibiase for nearly 45 minutes of sonic debauchery.


Aqui: Low End Theory Podcast IX

domingo, 15 de novembro de 2009

Waxpoetics # 38
















Yummy!

It’s been a long time coming. In fact, for the past eight years and thirty-seven issues, we’ve wanted to do a Curtis Mayfield cover. It finally worked out for our unofficial Film/Hustler Issue, in which we take a look at Mayfield’s epic soundtrack recording Super Fly. New York writer Michael Gonzales pulls from his own 1996 Curtis Mayfield interview as well as tapping Curtis associates, guitarists Craig McMullen and Phil Upchurch and composer/arranger Johnny Pate, to tell the story of the finest blaxploitation score of the 1970s.

Once again, we’ve created a split cover–with Curtis on front both times and the back shared by two classic films: Spike Lee’s Do the Right Thing (Radio Raheem in full effect) and Ralph Bakshi’s Coonskin (a Wax Poetics favorite). Besides speaking with both of these groundbreaking filmmakers, we also take a look at the new film Black Dynamite (Wax Poetics Records released the score and soundtrack), and music supervisor David Hollander reveals the fundamental facts of once-mysterious library music.

Last but not least, we finally unveil the Robert Beck aka Iceberg Slim story by longtime contributer Mark McCord (aka Mark Skillz). As the greatest hustler of all time, Beck finally gets his due.

Purchase at: Wax Poetics Storefront


Featured Articles:
Curtis Mayfield
“I don’t see why people are complaining about the subject of these films,” Curtis told Jet magazine in October 1972 in a statement that foreshadows the words of modern-day rappers. “The way you clean up the films is by cleaning up the streets. The music and movies of today are the conditions that exist.”
Spike Lee
What gets me mad about Bamboozled is that the New York Times refused to run the ad with Tommy Davidson and Savion Glover in blackface. The whole thing about the film was to show that there is a history behind this imagery.
Ralph Bakshi
When I was doing Mighty Mouse and The Mighty Heroes, I didn’t like what I was doing. That wasn’t the raw edge of life I grew up with. Bob Dylan was singing, the freedom marches were happening, Miles Davis was blowin’, and the stuff Coltrane was doing was brand new. So doing this stupid, old bullshit wasn’t good enough.

Also Includes:
Re:Discovery Melvin Van Peebles, Manfred Krug, Marvin Gaye, Judgment Night OST, John Carpenter
Roc Raida The Grand Master
Shadows and Phonographs This sinister role of the turntable in Hollywood classics
Brotherman Blaxploitation soundtrack for a film that wasn't meant to be
Adrian Younge Black Dynamite composer refuses to cut corners with his authentic old soul
Gangs On Film The South Bronx of 1979 documented in 80 Blocks from Tiffany's
Night Life Photographer Michael Abramson captured the magic of 1970s South Side Chicago
The Rhythm of Film DJ/producer David Holmes approaches soundtrack composition with a less-is-more philosophy
Mood Music European libraries created soulful instrumentals for '70s film and television
The Next Hustle Ex-pimp Robert Beck transformed into writer Iceberg Slim, introducing a new genre for literature, film and music
Comic Truth Animation and indie film pioneer Ralph Bakshi drew attention to race and culture
Gangster Boogie Curtis Mayfield injected his own cultural commentary into the Super Fly legacy
The Provocateur Director Spike Lee continues to tell personal stories by any means necessary
Playing It Straight Black Dynamite director Scott Sanders crafts high-caliber blaxploitation homage
Analog Out Cybernetics, Louis and Bebe Barron, and the sonic life-forms of Forbidden Planet

Em busca do disco perdido

«Ze 30» e «Horse Meat Disco» lançam achas para a fogueira do revisionismo disco que marca parte da produção mais interessante do presente. Tudo isto pela mão da Strut Records.

Com a imposição do formato CD, na transição da década de 80 para a de 90, surgiu igualmente a figura do curador da memória passada na pele do coleccionador de vinil. DJ umas vezes, produtor outras, mas tantas vezes alguém simplesmente interessado nas coordenadas exploradas no passado, esta figura recolheu e cuidou de artefactos da história da música a que a indústria discográfica, demasiado ocupada a vender pela segunda vez os mesmos discos às mesmas pessoas, não estava a prestar atenção. E depois, com o crescimento em importância da cultura da música de dança, apoiada constantemente numa revisão em alta do passado por via do sampler ou do próprio gira-discos, surgiram as visitas guiadas à memória de determinadas correntes pela mão destes especialistas.
Talvez tenha sido durante o reinado acid jazz – que coincidiu igualmente com a explosão sampladélica do hip hop - que se tenha atribuído importância ao acto de reciclar as rare grooves que serviam de pedra de roseta a toda essa cultura. As compilações «Blue Breakbeats» da Blue Note são disso um bom exemplo. Claro que não foi essa a primeira vez que se olhou para o passado com essa perspectiva: já na década de 70 as compilações «Nuggets» investigavam o legado americano de garage rock psicadélico em busca dos primeiros capítulos de uma história que viria a desaguar no punk – um dos organizadores era aliás Lenny Kaye, músico de Patti Smith. Mas Nuggets era claramente uma excepção numa indústria mais interessada em re-empacotar êxitos do que em olhar para a música que tinha escpado às alargadas malhas do sucesso.
Foi portanto na década de 90 que se consolidou este hábito de iluminar largas porções do passado que não tinha logrado entrar para os livros de história. Nesse processo surgiram editoras especializadas em vasculhar artigos e em recuperar para o presente música que há muito estava confinada a poeirentos arquivos: a Soul Jazz, a Harmless ou, entre várias outras, a Strut são exemplos óbvios.
Depois de ter visto a sua actividade interrompida em 2003 – quando no seu catálogo já incluía pérolas preciosas que recuperavam a memória do afrobeat da Nigéria, do disco de Nova Iorque ou do funk do Brasil – a Strut regressou à actividade em 2008 mercê de uma proveitosa associação à K7! E desde então não tem parado, prosseguindo o trabalho interrompido em 2003 e oferecendo-nos visitas guiadas à actividade dos estúdios Compass Point das Bahamas, ao Calypso das Caraíbas, à obra de Kid Creole e ao Italo Disco, entre outros títulos. Desta vez, a Strut também inverte a perspectiva e acrescenta à recuperação do passado uma sólida actividade de busca no presente dos desenvolvimentos originados precisamente pela música que lhes alimenta parte generosa do catálogo: edições dos Breakestra (pioneiros na renovação do funk) ou a série Inspiration Information – que promoveu o encontro de artistas como Mulatu Astatke e os Heliocentrics ou até, a editar em breve, de Jimi Tenor e Tony Allen – não permitem que se desenvolva sobre a Strut outra ideia que não seja concordante com a de uma editora de pés firmemente apoiados no presente.
Na mais recente leva de edições há duas compilações de interesse acrescido: «Ze 30», dedicada à história da seminal editora Nova Iorquina que explorou os canais de comunicação abertos entre a cultura disco sound e o punk, e ainda «Horse Meat Disco», compilação que ilustra o espírito de um clube a operar actualmente em Londres sob a orientação de Jim Stanton (ligado à revista Jockey Slut) e James Hillard (em tempos na mítica Nuphonic).
Com as compilações «Disco Not Disco» e «Disco Itália», a Strut já tinha explorado esta estética, mas o facto de ter encontrado mais dois ângulos para abordar esta área da música de dança só realça o rigor com que olha para um passado riquíssimo.
A Ze, claro, ajudou a definir os rumos da Nova Iorque mais desafiante do arranque dos anos 80 e na música dos Was (Not Was), Lizzy Mercier Descloux, Alan Vega, Kid Creole, Material ou Aural Exciters encontram-se as pistas para descodificar boa parte da produção de gente louvável como os LCD Soundsystem ou os Rapture. E se há bandas que seguem no presente a via deste disco sound angular é precisamente porque esta música se recusa a ficar encerrada no passado. E pode-se dizer exactamente o mesmo da música seleccionada para «Horse Meat Disco»: este clube inspira-se no período dourado da história de Nova Iorque que viu a música alargar-se até às 12 polegadas de vinil e o DJ a ganhar protagonismo em clubes como o Loft ou o Gallery. Na música de Karen Young, K.I.D., Gino Soccio, Gregg Diamond ou Tamiko Jones escolhida para esta compilação encerram-se verdadeiros manifestos de liberdade rítmica, pensados com o único propósito de realizar as visões do DJ que do alto da sua cabine orquestrava os movimentos na pista de dança. Música de realidade, portanto, mas também de fantasia e até de utopia social e política (títulos como «Love Me Tonight» ou «Let it Flow» indicam isso mesmo).
Com os olhos no passado, mas a cabeça decididamente ancorada no presente, a Strut prossegue a sua missão, em busca dos discos perdidos.

(Texto publicado originalmente na revista Parq)

Nota adicional:
Entretanto saiu Zevolution - Ze Records Re-Edited, uma compilação que parte de Ze 30 para reinventar o catálogo dessa histórica editora de Nova Iorque à luz da cultura de re-edits. Entre novas propostas de gestão do espaço rítmico assinadas por Soul Mekanik, PIlooski, Richard Sen, Greg Wilson, Run m' Tug, Todd Terje e Idjut Boys encontramos também um edit de Humberto Matias, aka Social Disco Club, para «Cowboys & Gangsters» de Gichy Dan's Beachwood Nº 9. O que já nem deveria espantar ninguém tendo em conta o impressionante volume de trabalho apresentado em tempos mais recentes, mas que ainda assim - a mim pessoalmente - me enche de orgulho. Go Humberto, go!

sábado, 14 de novembro de 2009

Super Disco no Maria Matos hoje.


O Super Disco de hoje promete muito. Promete, nomeadamente, resolver um mistério que já me acompanha há uns anos: quem eram, afinal, as pessoas por trás da Warm Records, editora que listava sempre duas moradas nas contracapas dos seus discos, incluindo uma de Londres e outra de... Azeitão. Nada no Discogs ainda hoje, pouco ou nada no Google, este era um mistério que ameaçava persistir, mas que hoje, com o convite dirigido a Rui de Castro,irá desaparecer. Finalmente. Mais abaixo encontram o texto que a Flur colocou no blog e no Facebook para promover o evento e onde muito acertadamente se fala de "arqueologia musical" e que situa a pessoa de Rui Castro. Logo depois, um par de velhos textos do Hit da Breakz onde dava conta de alguns achados com selo Warm Records. Mais recentemente encontrei outros dois discos para acrescentar a essa lista: um single de uma tal de Robot Jukebox Band (fantástico nome) com duas delirantes faixas creditadas a um tal M. de Castro - tem que ser familiar! - «Sweet Sixteen» e «Sàbado à Noite»; e ainda um álbum com uma incrível Megamix disco creditado a uns tais Enigma e que tem o título «Ain’t No Stopping Disco Mix 81» (tenho um exemplar a mais: candidatos a troca deixem comentários por aqui).
O tema que a Flur colocou no blog e que mais abaixo linko igualmente do YouTube vai obrigar a reescrever a história do hip hop em Portugal. E, lentamente, começa a desenhar-se outra imagem de Portugal nos idos de 80: um pioneiro do electro rap aqui, uns músicos de Disco ali (Toronto) e até um criador de acid house acolá (há uns tempos encontrei um maxi inglês de 88 com um nome indiscutivelmente português de que não consigo recordar-me agora nos créditos).
Imperdível Super Disco mais logo, portanto (imperdível para todos, menos para mim que, provavelmente, terei que apenas escutar o programa de rádio mais tarde...). We'll see.

A descrição que se segue parece fabricada, um sonho de arqueologia musical, histórias vividas em primeira mão e na primeira pessoa, tudo verdade: Rui de Castro viveu em Londres durante a década de 70, assistiu por dentro à ascenção e decadência do pun...k, vizinho da frente de Johnny Rotten, músico (The Warm), editor (Warm Records, inaugurada com dois singles em 1976), contacto privilegiado de António Sérgio para fornecer novidades frescas de Inglaterra. Regressado a Portugal no início da década de 80 viu frustradas pelo “Sistema Fonográfico” vigente as suas tentativas para fazer cá uma editora independente. Um resultado visível de toda essa frustração é o single de 7″ “O Pirata (Pirata Rap Attack)”, auto-produzido e editado em 1984 sob o nome Rui de Castro e o Grupo Português de Piratas. O formato rap/electro faz deste disco uma peça única no panorama discográfico português, a letra aborda em tom de sátira o assunto sempre relevante do direito à diferença e auto-determinação. Este é o Super Disco para dia 14 de Novembro. Mário João Camolas tem um dos dois ou três exemplares alegadamente vendidos e estará connosco na mesa para conversar com Rui de Castro.


Do Hit da Breakz

TOUCHDOWN - Aquadance/Ease Your Mind (12", Warm Records, 1982)
Com este máxi aprendi que tudo o que me surgir à frente com selo da Warm Records merecerá a minha atenção. Jazz funk executado para pista de dança no lado B e um pedaço de céu punk funk no lado A tornam este 12" dos Touchdown (não perguntem que eu não sei quem eles são...) uma presença obrigatória na minha mala de discos, com resultados já comprovados nas noites dos Loop Diggaz no Mercado (a próxima é já dia 12 - marquem nas agendas!). Não há muito mais a dizer: ouçam!

SURFACE NOISE - The Scratch (LP, Warm Records, 1981)
Nada sobre estes tipos no Google, mas este álbum é uma obra-prima. Com uma ligação a Portugal (mais concretamente a Azeitão, de onde deveria ser, a acreditar no apartado que aparece na contracapa, o senhor Cardoso que aparece referenciado nos créditos), esta editora Warm Records apresenta os seus discos em capas baratas e básicas, mas a música nela contida é entusiasmante. Este álbum foi criado por Chris Palmer (o nome é demasiado vulgar, mas poderá ser o mesmo Chris Palmer que tocou com os Egg de Dave Stewart em 1974...) e é um poderoso cocktail de funk, disco, jazz e electro, bem ao sabor do que os produtores mais informados faziam no início dos anos 80. Há um single deste tema, The Scratch, mas nunca se atravessou no meu caminho. Mais dia, menos dia...


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Madlib's Medicine Show


Wowa, pobres bolsos...:

Madlib is launching the Madlib Medicine Show, a once-a-month, twelve-CD, six-LP series. The Madlib Medicine Show will be a combination of Madlib's new hip-hop productions, remixes, beat tapes, and jazz, as well as mixtapes of funk, soul, Brazilian, psych, jazz and other undefined forms of music from the Beat Konducta's 4-ton* stack of vinyl.

Madlib Medicine Show No. 1 is Before The Verdict featuring Guilty Simpson, a 17-track album mixing remixes and new material, something of a prelude to Madlib & Guilty Simpson's forthcoming OJ Simpson album.

STONESTHROW.COM advance release date: December 2009
WORLDWIDE release date: January 2010

We are currently planning for the vinyl edition of Madlib Medicine Show No. 1 to be a hand-screened, limited edition release. Madlib Medicine Show No. 2, Flight to Brazil, is a mixtape of Brazilian jazz, funk, prog-rock, folk and psychedelia. Later releases will include Beat Konducta in Africa.

(*4-tons of vinyl, this is true.)


MP3: Madlib & Guilty Simpson - The Paper from Madlib Medicine Show No. 1

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Novidades na BBE

Talvez seja da chegada do Natal, mas a verdade é que a BBE se agita. Importa, sobretudo, chamar a atenção para as duas compilações cujas capas aqui se reproduzem: DJ Spinna às voltas com a memória do boogie, quando a definição do universo hip hop ainda estava em marcha e os bailarinos mais cool do mundo pareciam mover-se - ou moviam-se mesmo!.... - sobre patins. Música enorme. E depois temos ainda a compilação carregada de raridades de John Morales, com trabalhos inéditos realizados para a Salsoul. Não é preciso escrever mais nada... Entrevistas com DJ Spinna e John Morales por aqui muito em breve.


domingo, 8 de novembro de 2009

DWA: diggers with attitude


É fim de semana, há energias para recuperar, discos para ouvir, pessoas para visitar, casas para arrumar - enfim, uma agenda carregada que não se compadece com longos posts, mas, precisamente por ser domingo, não queria deixar passar a oportunidade de recomendar a relaxada leitura das aventuras de uma série de notórios diggers cujas actividades têm vindo a ser documentadas no excelente blog Dust and Grooves: os textos deixam correr as histórias em discurso directo e as imagens são reveladoras - carregadas de preciosidades e evidenciadoras de uma fome de vinil pelo menos tão grande como a nossa. Boa leitura!

sábado, 7 de novembro de 2009

Documentário sobre o Krautrock

Krautrock: The Rebirth of Germany from self-titled on Vimeo.


Post muito rápido só para chamar a atenção para este documentário da BBC que tem andado a fazer um excelente trabalho: conferir docs Prog Britannia e Synth Britannia (sites de torrents, por exemplo). Desta vez a atenção recai sobre a revolução rock alemã.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Honest Jon's: entre o passado e o futuro

A Honest Jon’s é uma das lojas de discos de referência em Londres. Nos últimos anos, através de uma associação a Damon Albarn dos Blur, transformou-se igualmente numa das mais interessantes editoras com uma actividade que une as coordenadas do espaço e do tempo num brilhante catálogo.

A realidade é clara: a música tem vindo a mudar-se com crescente velocidade para um plano incorpóreo, onde existe liberta de uma dimensão física. As novas tecnologias subjugaram a música a uma nova ordem de ideias – reduzida à dimensão de “conteúdo”, a música é apenas mais um dos vectores onde assenta o verdadeiro negócio: o da comercialização de peças de hardware crescentemente sofisticadas e com cada vez maiores capacidades de “memória” e de espaço de armazenamento. Essa “memória”, no entanto, tende a apagar o carácter da música reduzindo-a toda a uma condição meramente funcional. Nesta passagem a outro plano de existência, a música tem perdido a sua própria memória: desaparecem as molduras gráficas que são reduzidas a minúsculos ícones, desaparecem as “liner notes” que são transformadas em hiperligações, desaparece o contexto. Em tempos idos, a indústria do Hi-Fi era orientada para o consumidor no pressuposto de que permitiria retirar o maior prazer possível da música. Mas hoje essa ordem natural alterou-se e é a música que parece orientada como mais uma forma de retirar o maior prazer possível do iPhone ou do iPod.
E é exactamente por isso que a actividade de editoras como a Honest Jon’s (www.honestjons.com) resulta tão crucial. Com distribuição assegurada em solo nacional pela Flur (www.flur.pt) , esta editora oferece várias portas de entrada para um universo onde as fronteiras de espaço e tempo são diluídas e onde o prazer da descoberta é acentuado.
O interessante neste catálogo é, precisamente, a sua liberdade: não existe uma linha nítida de exploração de uma ideia de Groove, como acontece na Soul Jazz, e muito menos um foco exclusivo numa estética ou numa região geográfica, como acontece nos catálogos da Soundway ou da Analog Africa. O fio condutor que une as diversas entradas no espantoso catálogo da Honest Jon’s é feito de outro impulso: entre a exploração do espaço protagonizada pelo recente exercício do Moritz Von Oswald Trio e o mergulho nos arquivos do Congo para «The World Is Shaking – Cubanismo From The Congo 1954-1955» vai uma incomensurável distância. Dois mundos, duas épocas, duas estéticas completamente diferentes. Práticas, ferramentas, atitudes quase opostas. Mas uma idêntica vontade: a de traduzir o seu próprio mundo, a de inscrever a sua época num devir histórico mais amplo. A Honest Jon’s é uma editora discográfica, mas poderia ser uma colecção privada de fotografia, tal a vontade que tem de documentar um mundo em permanente mudança. É a mesma vontade que anima os excelentes Hypnotic Brass Ensemble, colectivo que une as galáxias de Sun Ra, Fela Kuti e James Brown com o mesmo fôlego anímico que define os sons que se desprendem das «Open Strings» - onde passado e presente são aliás colocados em rota de colisão por via de respostas dadas por contemporâneos como Sir Richard Bishop a gravações de arquivo datadas dos anos 20.
A abordagem da Honest Jon’s à construção de um catálogo não deve ser analisada sem se considerar que o ponto de partida para esta aventura se encontrou, precisamente, nas prateleiras da loja de Portobello Road aberta desde os anos 70. Foi nessa loja que um jovem James Lavelle começou a trabalhar e terá sido ao dono que pediu as mil libras com que deu início à aventura Mo’ Wax. Porque ninguém consegue olhar para o stock de uma loja sem imaginar o que lhe poderia acrescentar. Desse manuseamento físico nascem as vontades que depois servem de base a aventuras como a que a Honest Jon’s agora protagoniza. A construção de um mundo onde a música – e não os artefactos que a permitem ler – ocupa o verdadeiro centro e justifica tudo o resto. Entre o Congo, Baghdad, Nova Iorque e Berlim ou entre a década de 20 do século passado e o presente não há fronteiras, nem distâncias. Cada uma dessas coordenadas é uma porta representada por um número de catálogo na Honest Jon’s: é possível cruzar todas essas portas ao mesmo tempo e beber a informação e a música contida em cada um dos lançamentos que a Flur agora disponibiliza entre nós. Segurando na mão capas que são completamente relevantes para a fruição do todo, deixando os olhos sorver a informação nelas contidas. Entendendo que a música não se pode reduzir a um ficheiro despido de toda a sua bagagem – e como se pode viajar sem bagagem?

(Texto publicado originalmente na revista Parq)

domingo, 1 de novembro de 2009

António Sérgio R.I.P.

António Sérgio faleceu esta madrugada, aos 59 anos, vítima de ataque cardíaco, segundo declarou ao Público Luís Montez, proprietário da Radar FM onde o radialista apresentava actualmente o programa «Viriato 25». E assim, a 1 de Novembro de 2009, desaparece uma voz pioneira do panorama rádio português.
São muitos os marcos na carreira de António Sérgio – aos microfones da Renascença e da Rádio Comercial assinou programas míticos que muito contribuíram para definir a identidade de toda uma geração, como o Rotação, o Som da Frente ou o Lança Chamas. O vigor e entusiasmo que colocava nos programas que fazia permitiram-lhe a ambição de outros projectos, como o apadrinhamento e a produção do primeiro álbum dos Xutos & Pontapés. O punk foi uma das bandeiras de António Sérgio que nunca desistiu de procurar o que estava à frente e de onde vinham as mais recentes novidades: tinha os ouvidos generosamente receptivos às mais desafiantes tendências e nunca se cansou de as divulgar. Em 2007 abandonou os microfones da Rádio Comercial, onde passou a maior parte da sua carreira, depois da direcção ter concluído que o seu programa, «A Hora do Lobo», já não se encaixava no perfil da estação. Mudou-se para a Radar FM onde era tratado por “mestre”. Apresentava o programa Viriato 25.
No passado dia 10, António Sérgio, a sua mulher Ana Cristina Ferrão e eu próprio fomos convidados da Fnac para um debate sobre o vinil e a sua importância. O debate aconteceu à hora de um decisivo jogo da selecção portuguesa e a plateia encontrava-se praticamente vazia, mas ainda assim Sérgio não conteve o entusiasmo com que falou do suporte que o acompanhou durante boa parte da sua vida. Trazia, entre outros, um disco dos Sex Pistols que fez questão de tocar como se soubesse que a imensa minoria que o ouvia continuava atenta. António Sérgio esteve na frente até ao fim.