
Last warning!
Até amanhã.
Todo o funk que há no jazz, todo o rock que há no disco, toda a soul que há na folk, todo o passado que há no futuro. Discos, ideias, textos.
Como forma de preparação para a sessão de amanhã, na Crew Hassan (Rua do Coliseu dos Recreios), a partir das 16 horas, deixo aqui uma série de Tops que poderão funcionar como guias para quem gosta de expedições de procura de vinil. Ou não.
Chega uma altura na vida de todos os diggers em que a terrível pergunta "será que eu preciso de ter mais discos em casa?" se coloca, provavelmente no preciso momento em que se decide marcar um café com um amigo para aquela esplanada ao lado da Cash Converters ou daquele secret spot que não se partilha com mais ninguém. E a alma acalma-se apenas quando nos recordamos que ninguém procura discos porque precisa, mas porque quer. Fazer diggin' é abraçar a constante possibilidade de se ser surpreendido, abrir a cabeça a um praticamente infinito número de coordenadas que, no mesmo dia, no mesmo spot, nos pode impelir nas mais distintas direcções: antes de ontem, por exemplo - dois discos de Joan Baez, um de Peter Green, um de Chubby Checker, outro de Herman's Hermits, um álbum produzido por Gino Soccio, outro assinado pelos Voyage e outro ainda dos Space colocaram folk, british invasion pop, rhythm n' blues e limbo (check the cover!!!) e disco sound no mesmo saco. E pelo preço de um simples CD. Como é claro, será difícil mantermo-nos a par das mais recentes edições no tipo de lojas onde se encontram lotes destes, mas não é disso que se trata aqui e, para falar verdade, não conheço nenhum digger convicto que tenha voltado as costas ao presente. Melhor ainda: acho que os diggers a sério são os que encontram no presente os estímulos para explorar o passado.
A emissão # 25 do África Eléctrica decorreu, como explico logo no início, sem mapa e ao sabor dos discos que me apetecia ouvir naquele momento: abertura com Lafayette Afro Rock Band, depois vem Orlando Julius, Tunde Williams, Super Negro Bantous, Oriental Brothers e Matata a fechar a primeira hora. Na segunda parte desta emissão há uma viagem pelo legado mais funky de África, recorrendo a compilações da Analog Africa ou da Soundway e optando pelo formato mais livre de um dj set.
Ainda há fenómenos curiosos despoletados pelo universo do coleccionismo e do diggin': uma banda que nunca ultrapassou as paredes do estúdio, mas que criou um clássico que demorou 30 anos para encontrar o seu verdadeiro público (sinal de que estava à frente do seu tempo), apresenta-se finalmente ao vivo a convite de uma comunidade de djs que muito contribuiu para que o referido álbum se tornasse num holy grail. Falo dos Arpadys do grande baixista Sauveur Mallia veterano dos estúdios da companhia de library music Tele Music que recentemente foi alvo de um projecto de remisturas conduzido pelos responsáveis do site DJ History: está tudo aqui.
A proósito desse álbum de remisturas, e porque o presente assim o exige, os Arpadys responderam favoravelmente a um desafio e vão subir ao palco do Cargo, em Londres, a 30 de Abril, para uma noite de absoluto luxo. Da newsletter do Dj History:For those of you not au fait with these disco legends, the Arpadys musicians were the men behind Voyage, Cerrone, Don Ray, Crystal Grass and countless other great French productions. After our storming remixes of their Tele Music sessions on Le Disco, they've agreed to play live together for the very first time. We've coaxed them away from their glasses of Pastis and croque monsieurs for a killer evening of cosmic disco to celebrate the launch of our Le Disco album (soon on vinyl and CD) and Disco Files book. DJ support from the Idjut Boys, Toby Tobias, Jonny 5 and Bill Brewster. Tickets for this once-in-a-lifetime gig are a trifling £8. Arpadys, April 30, Cargo, £8.
A propósito do Record Store Day, a simpática Flur convidou-me para, aos microfones da Oxigénio, recordar os dias da Lollipop, loja do Bairro Alto que ajudei a orientar com o Rui Vargas (numa primeira fase) e depois com João Gomes e Tiago Santos (já perto do final, em 98). Na conversa com o Zé António Moura da Flur acabei por não ter oportunidade de explicar de onde vinha o nome da loja - a capa de disco que aqui incluo desvenda esse "mistério".
Uma das minhas últimas passagens pelas feiras da zona de Oeiras rendeu, por 2 euros, um King Floyd de prensagem americana original na ATCO, etiqueta da Atlantic. O álbum foi gravado em 1973 em Jackson, Mississippi e produzido por Elijah Walker. Nesta época a Atlantic mandava pessoas de Nova Iorque para investigarem o que faziam etiquetas mais pequenas e foi exactamente dessa forma que King Floyd foi descoberto. O interessante destas gravações é a honestidade que contêm: sem truques absolutamente nenhuns, isto é soul da mais transparente que existe, com músicos de grande calibre a debitarem alma de cada vez que o engenheiro grita "rolling tape". Para lá das canções (e este é um belíssimo disco com grandes canções), o que me fascina aqui é o som - de cada vez que o baterista acerta na tarola quase dá a impressão que se pode ver a sala onde estão a decorrer as gravações. A minha agulha não está na melhor das formas e vai-se abaixo nas frequências mais altas, não fazendo justiça aos hi-hats e à secção de metais. Mas para os que aí foram procuram papinha para o sampler, talvez os drums que se encontram no início destes wavs sejam úteis (se não conseguem samplar de vinil, pelo menos tentem arranjar wavs e não samplem mp3, vá lá...!). Para ouvir o álbum todo, recomendo uma passagem por aqui.
São raros estes momentos, em que finalmente podemos respirar fundo, ainda que só por um segundo e mesmo com uma "to do list" bem à frente do nosso nariz que não nos deixa embarcar em grandes ilusões de tempo livre. Mas finjamos que sim, que o fim de semana se estende glorioso, invulgarmente dilatado por uma sexta-feira que dizem que é santa (bem dita sexta-feira, digo eu, que cai nesta semana que nem ginjas), e vamos fazer um plano de audições para servir de banda sonora ao "descanso". Depois de uns dias em Londres, onde tive oportunidade de estar com o Fred Somsen da extinta Ananana no escritório europeu da Drag City, que agora dirige, há uns discos novos na prateleira das aquisições recentes. É aí que nasce esta lista - nas novidades recém adquiridas (ou recebidas...!):Weekendin'
Bachelorette - My Electric Family (drag city)
Death - ...For The Whole World To See (drag city)
Bill Callahan - Sometimes i wish we were an eagle (drag city)
the byrds - younger than yesterday (columbia)
The Heliocentrics - Sirius B (now again)
Wee - You can fly on my aeroplane (numero)
The George Edwards Group - 38:38 (drag city)
The Whitefield Brothers feat. Guilty Simpson - Dreads/American Nightmare (now again)
Nathan Davis - The Best of Nathan Davis '65-76 (jazzman)
Ofege - Try and Love (academy)
Mulatu Astatke e os Heliocentrics têm um álbum na série Inspiration Information da Strut e esse foi o mote para mais uma sessão de exploração do imenso e incrível continente negro na 24ª emissão de África Eléctrica. Há mais: Kaleta & Zozo Afrobeat e um set de Frank Gossner na segunda hora. Boa audição!
Booker T Jones está de regresso ao activo e logo na Anti, a mesma editora de, entre muitos outros, Tom Waits. Não são comuns estes regressos e sobretudo não será comum ver um homem como Booker T gravar um álbum com os Drive By Truckers por banda de suporte e Neil Young como um dos convidados (embora, como é óbvio, os MG's tenham sido um bem sucedido caso de integração no seu próprio tempo). O álbum inclui ainda uma versão de «Get Behind The Mule» de Tom Waits e é sujo, pesado e denso como os melhores registos de blues. A apresentação da editora:Trailblazing soul man Booker T Jones has written the most audacious chapter of his career with Potato Hole, his first solo album in decades and the natural evolution of his groundbreaking work leading Booker T and the MGs in the 1960s. Backed by the Drive-By Truckers with Booker's signature Hammond B3, Potato Hole is raw and edgy, fun and innovative. Produced by Rob Schnapf & Booker T.
Em 1961 Norman Granz vendeu a Verve à MGM e Creed Taylor (o “c” e o “t” da CTI) foi recrutado para dirigir o selo. Carregado de energia depois de ter estabelecido a Impulse na ABC, Taylor tomou uma série de decisões executivas de imediato – nomeadamente a contratação agressiva de alguns nomes de peso, como Stan Getz ou Bill Evans – e apontou o seu catálogo ao grande público. Nesta era, ainda antes dos Beatles redefinirem as coordenadas da indústria musical, a divisão era clara: rock and roll era coisa de adolescentes e o jazz a música de adultos responsáveis. Sobretudo “este” jazz. Alheio às revoluções estéticas que sacudiam o jazz nesta época, Creed Taylor delineou uma estratégia que colocava claramente o lucro antes da arte e o impacto antes da invenção. Com o público americano ainda imerso numa ideia muito particular de exotismo – bem expressa nas “febres” do Mambo ou na “tiki culture” que celebrava toda a ilha que tivesse um vulcão e nativas com saias de palha – Taylor apontou as suas armas à bossa nova que ecoava nos apartamentos do Rio de Janeiro e foi um dos responsáveis por trazer o género para a América. Ponta de lança no seu catálogo para essa missão? Stan Getz. Aproveitando o facto de Charlie Byrd ter regressado de uma digressão pelo Brasil apoiada pelo Departamento de Estado americano, Getz iniciou em 1962 uma série de gravações que se revelariam chave para impor a bossa nova nos Estados Unidos, a primeira das quais “Jazz Samba”, com a participação de Byrd.
Em Dezembro de 1962, Luiz Bonfá foi chamado a Nova Iorque para registar mais uma entrada no catálogo da Verve devotada à bossa nova. Com Lalo Schifrin ao piano e a “ajuda” do guitarrista Óscar Castro-Neves, Bonfá desfila charme por 12 miniaturas profundamente líricas (temas de dois minutos em álbuns de jazz devem ser raros…). O autor do standard Manhã de Carnaval impressionou certamente com a sua actuação no festival de bossa nova que o Carnegie Hall recebeu em Novembro de 62, pois no final de Dezembro estava em estúdio a gravar um álbum onde os seus três lados – o de cantor, o de guitarrista e o de autor – são explorados num conjunto admirável de composições (11 das 13 têm a sua assinatura).
“Cal Tjader Plays The Contemporary Music of México and Brazil” é outra entrada de peso na série Originals. Vibrafonista sólido, Tjader trabalhou com navegantes do “third stream” como Dave Brubeck e George Shearing, mas nos anos 50 o trabalho de Tito Puente e Machito em Nova Iorque atraiu-o irremediavelmente para a esfera latina onde revelou uma natural fluidez, encaixando-se na perfeição por cima das descargas rítmicas executadas pelos músicos latinos com quem ia colaborando (notáveis como Eddie Palmieri ou Mongo Santamaria). Neste álbum, Tjader atravessa a fronteira duas vezes, para o México e para o Brazil, em busca de exotismo que explora com classe, não revelando no entanto o rasgo que marcaria o seu maior êxito, “Soul Sauce”, de 64: há por aqui trabalho, mas Tjader nunca chega a largar um pingo de suor, tudo é mais contido do que o reportório pedia.
Finalmente, o lote latino das mais recentes reedições da Originals, fecha-se com outro peso pesado: o pianista Ramsey Lewis que surge aqui com “Goin’ Latin”. A base é fornecida pelo trio que forma com Cleveland Eaton no baixo e Maurice White (que alcançaria uma desmedida fama nos anos 70 como vocalista e líder dos Earth, Wind & Fire!!!) na bateria. Este é também o mais tardio registo deste grupo de reedições: em 1967 outras revoluções de carácter social estavam em marcha e isso manifesta-se no peso de temas como “One, Two, Three” e na entrega a baladas como “Free Again”, sentindo-se Lewis igualmente à vontade em ambos os registos. O facto de ter encimado tabelas de vendas com trabalhos como “The In Crowd” ou “Wade in the Water” serve para atestar o facto de Lewis ter sido sempre um comunicador, qualidade que nunca sacrificou em detrimento de algum desejo mais exploratório. Uma vez mais, é música que soa melhor num clube do que num salão e aqui sim, percebe-se que há pingos de suor a sublinharem uma entrega mais física.
Stan Getz
Big Band Bossa Nova
Verve
Stan Getz (saxofone tenor); Bernie Glow, Doc Severinsen (trompete); Ray Alonge (trompa), Tony Studd, Bob Brookmeyer (trombones); Ed Caine, Gerald Safino (flautas); Ray Beckenstein, Romeo Penque (clarinetes); Hank Jones (piano); Jim Hall (guitarra); Tommy Williams (baixo); Johnny Rae (bateria); Carmen Costa, José Paulo (percussões); Gary McFarland (arranjos).
Nova York, 27 de Agosto, 1962
Luiz Bonfá
Bossa Nova
Verve
Luiz Bonfá (guitarra, voz); Leo Wright (flauta); Oscar Castro Neves (piano, orgão); Iko Castro Neves (baixo); Roberto Pontes Dias (bateria); Henri Percy Wilcox (guitarra eléctrica); Maria Toledo (voz); Lalo Schifrin (piano, arranjos).
Nova Iorque, 30 e 31 de Dezembro, 1962
Willie Bobo
Bobo Motion
Verve
Willie Bobo (percussão); Bert Keyes & Sonny Henry (arranjos).
Nova Iorque, 1967Cal Tjader
Cal Tjader plays the Contemporary Music of Mexico and Brazil
Verve
Cal Tjader (vibrafone); Freddie Schreiber (baixo); Johnny Era (tímbales e bateria); Chonguito (congas); Clare Fischer (piano e arranjos); Ardeen deCamp (voz); John Lowe, Don Shelton, Paul Horn, Gene Sipriano (sopros); Milt Holland (percussão), Laurindo Almeida (guitarra).
Hollywood, 5, 6 e 7 de Março de 1962
Ramsey Lewis
Goin’ Latin
Verve
Ramsey Lewis (piano); Cleveland Eaton (baixo); Maurice White (bateria)
Chicago, 21, 22 e 23 de Dezembro de 1966
Lalo Schifrin
Piano, Strings and Bossa Nova
Verve
Lalo Schifrin (piano, arranjos); Chris White (baixo); Rudy Collins (bateria); Jim Hall (guitarra); Carmen Costa, José Paulo (percussões).
Nova Iorque, 23 e 24 de Outubro de 1962
Depois das edições dedicadas aos Green Arrows e à Orchestre Poly-Rytmo de Cotonou e, claro, da excelente compilação African Scream Contest, a invariavelmente excelente Analog Africa volta a dar notícias. No próximo mês de Maio será editada nova compilação que recolhe argumentos, uma vez mais, no Benin, terreno fértil para propostas poderosíssimas de Afro Funk e local de peregrinação por excelência de Samy Ben Redjeb, homem do leme desta editora.A collection of super rare and highly danceable masterpieces recorded between 1969 -1981 by four legendary composers from Benin:
ANTOINE DOUGBÉ
EL REGO et Ses Commandos
HONORÉ AVOLONTO
GNONNAS PEDRO & His Dadjes Band
each one of them with their own distinctive sound. This compilation comes with a 40 page full colour booklet with ultra rare pictures and biographies. Fasten your seat belt and enjoy the mind-blowing sound of Benin.
