quarta-feira, 18 de março de 2009

Op. # 27 nas bancas

Já está disponível por aí o novo número - 27º - da revista Op. com duas capas, como sempre. Além de Kanye West há também a possibilidade de adquirir este número com uma capa dedicada ao escritor George Steiner.
A revista vem muito bem recheada e inclui artigos sobre a Motown, Ken Vandermark, Steinski, Tom Zé e muito mais em 76 páginas plenas de informação e pensamento. Pode tardar a Op., mas não falha.

domingo, 15 de março de 2009

LX Taster 2009: Dia 4 - o que fica?


Terminou hoje a odisseia LX Taster 09 e terminou da melhor maneira: com uma festa em dia de sol, barbecue de sabores sofisticados, dj sets de música inundada de soul e com a audição de trabalho realizado. Há muitas conclusões passíveis de serem retiradas desta iniciativa da Red Bull Music Academy: existe talento em portugal, existem pessoas capazes de alimentar uma visão destas, existe matéria prima para a construção de um presente e de um futuro. E isso levanta questões: como seria se Lisboa dispusesse de um espaço assim onde produtores se pudessem cruzar com MCs e onde DJs pudessem interagir com músicos, com cantores, com quem agita pistas e consciências e caixas de sub-graves? Durante quatro dias a resposta foi dada com estrondo: seria fantástico! Tamin a cantar para Bonga ou Mulatu a abraçar um emocionado DJ Ride ou Ty de cabeça baixa, de pé e de braços abertos perante uma plateia sôfrega de experiência, ou Rão Kyao a tocar corações e Deadbeat a ilustrar a ciência das baixas frequências, ou a agitação em corredores, junto de teclados e samplers e gira-discos - tudo isto marcou esta segunda edição de LX Taster que deixa pistas para um enorme futuro. Viver estes quatro dias foi quase viver um sonho acordado. Mal posso esperar pela próxima edição!

sábado, 14 de março de 2009

LX Taster 2009: Dia 3 - Mulatu, Ty


Ainda se sente a excitação no ar: no segundo dia do taster viajou-se de Lisboa à Índia, do Canadá e de Detroit até Berlim, e de Luanda até Lisboa uma vez mais, completando-se um circulo de histórias que ligaram Rão Kyao, Deadbeat e Bonga a uma mesma vibração superior.
Kyao mostrou o sopro da vida e falou ao coração e à alma de todos os presentes, Deadbeat assumiu o amor pelas baixas vibrações e foi mais cerebral e Bonga... bem, Bonga foi Bonga: cantou, tocou, dançou, ensinou, comoveu-se, ouviu declarações de amor, fez um dueto e até improvisou um pouco por cima de Buraka Som Sistema. Ponto alto do dia, sem a menor sombra de dúvida.
Para o terceiro dia perfila-se mais uma mão cheia de emoções fortes. Mulatu Astatke desafiou os produtores presentes a remisturarem um dos seus temas e a noite foi longa para alguns beatmakers que vão querer certamente mostrar o resultado do seu trabalho ao mestre do "ethio jazz", que ontem falava com o entusiasmo do facto de ter descoberto alianças históricas entre a Etiópia e Portugal, no século XV. Ty, o homem de "Upwards", grande MC inglês, trará igualmente a sua vasta experiência até ao sofá deste LX Taster que promete mais um dia preenchido de música, ideias, palavras e sons.

sexta-feira, 13 de março de 2009

LX Taster 2009: Dia 2 - Rão Kyao, Deadbeat e Bonga

Segundo dia de taster e tudo vai bem: o sol brilha, as disposições são fantásticas, a comida é incrível. Tive a honra de me sentar este ano pela primeira vez como "host" no sofá deste Taster com o senhor Rão Kyao, para uma lecture que será certamente lembrada por muitos anos por todos os que tioveram o prazer de assistir. Cá fora os participantes confessavam ter sido tocados no coração. De uma modéstia desarmante para quem tanto fez e conhece (e para quem tanto conquistou: Rão Kyao foi o primeiro português a ser galardoado com um disco de Platina em Portugal no tempo em que a platina ainda significava vendas generosas!), Rão conquistou a alma de todos os presentes, tocou flauta, mostrou música de quem o inspirou (ouvir Yusef Lateef em 1960 a tocar ocarina foi um grande momento), ouviu uma remistura de Kaspar para um tema seu, aplaudiu, comoveu-se ao evocar Carlos Paredes e conquistou uma nova plateia de fãs. É por causa destes momentos que a RBMA é um evento tão especial. Ainda há mais pela frente no dia de hoje: Deadbeat e Bonga serão os senhores que se seguirão neste segundo dia de Taster. Mais novidades ao longo do dia.

quinta-feira, 12 de março de 2009

LX Taster 2009: It's just begun

Imagino que a cacofonia que se desprendia do famoso Brill Building fosse muito diferente (não deviam existir por lá MPCs, nem Moogs ou Technics 1210...), mas a vibração deveria ser semelhante: 50 talentos do lado mais electrónico da nossa música (já por cá vi DJ Ride, Violet, Mushug, Kaspar, Infestus, Gino, Mr_Mute e muitos outros agitadores de sons e samples, de grooves e ritmos) ocupam agora os espaços laterais de uma imensa rotativa que preenche uma nave inteira na Lx Factory. Dispostos por três pisos diferentes estão máquinas diversas, espaços para troca de ideias, computadores, livros. Se é fábrica de alguma coisa, neste momento, este edifício que recebe o LX Taster é fábrica de potencialidades. Vão certamente sair daqui alianças criativas, colaborações e cumplicidades que um dia destes vamos estar a partilhar em MP3 ou até a comprar em vinil. É esperar para ver. Entretranto, Bonga, Rão Kyao, Deadbeat, Ty, Mulatu e Patrick Pulsinger farão a ponte entre este recanto de Lisboa e o resto do universo de sons que se estende lá fora.

LX Taster 2009

Arranca hoje em Lisboa mais uma edição do LX Taster onde terei o prazer de estar a colaborar. 50 participantes que representam algumas das mentes mais musicalmente agitadas do nosso país estarão presentes num incrível espaço para partilhar, aprender e ensinar, para, sobretudo, sorver uma experiência que é única no nosso país. O espírito Red Bull Music Academy está, de novo, em Lisboa. Conto ir comunicando por aqui - assim o tempo o permita - todas as histórias dignas de registo. Esta edição estende-se até domingo e tem a participação de lecturers de respeito. Saibam tudo aqui. E mantenham-se ligados.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Kutiman a remisturar o YouTube



Próximo nível do diggin'? Ainda recentemente Sam the Kid me dizia numa entrevista que já tinha samplado coisas directamente do YouTube, algo que, tenho a certeza, já muitos produtores armados com um sampler fizeram, mas Kutiman acaba de levar a ideia ao extremo com o projecto Thru You. Este produtor israelita já tinha deixado o seu talento muito claro numa série de interessantes lançamentos, mas esta é uma ideia absolutamente brilhante - colagem de fontes dispersas - sonoras e visuais ao mesmo tempo - disponíveis no tão conhecido YouTube. Como é óbvio é necessário um pensamento de orquestrador para imaginar como se podem ligar todas estas performances dispersas e Kutiman revela ter o que é necessário para cumprir tal propósito. Divirtam-se!

Na sombra de Fela

O duplo CD (que em vinil se traduz em quatro apetitosas rodelas) “Nigeria special: modern highlife, afro sounds & nigerian blues 1970-76” representa o mais alto momento do catálogo da Soundway de Miles Cleret. A perspectiva nómada deste arquivista já o conduziu do Ghana ao Panamá e do Benim à Colômbia, paragens que renderam sempre excelentes compilações. A expedição dirigiu-se desta vez à Nigéria do período compreendido entre 1970 e 1976, época dourada de Fela Kuti que a partir da sua Kalakuta Republic em Lagos lançou uma série de ritmadas bombas políticas: “Why black man dey suffer” (1971), “Roforofo fight” (1972), “Afrodisiac” (1973), “Expensive shit” (1975) ou “No bread” (1976) são alguns bons exemplos.
Na sombra de Fela, porém, existia outra Nigéria não alcançada pela língua yoruba onde os dialectos igbo e edo facilitavam uma alternativa de comunicação mais livre da pesada influência dos desenvolvimentos afrobeat testados no laboratório Shrine. Assim, o highlife importado do vizinho Ghana juntamente com influências de soul e rock (muitos destes músicos ganhavam a vida em hotéis a tocar para ocidentais…) ofereciam um template alternativo a que muitos músicos aderiram. Tal como a arqueologia deep funk permitiu compreender em relação à produção norte-americana que o impulso criativo se traduzia frequentemente numa única edição, também na Nigéria muitas destas gloriosas bandas não passavam do lançamento de um solitário single, estando por isso esquecidas há décadas. “Nigeria special” oferece-lhes uma renovada possibilidade de eternidade.
Ao número inaugural da revista “Shook”, Miles explicou que nesta compilação “não há ju ju nem afrobeat” e que a opção foi por olhar antes para “raridades que poderiam existir apenas em obscuras colecções ou na memória das pessoas.” Na verdade, compilações como “Nigeria Special” facilitam a construção de uma memória que em caso contrário não teria tradução concreta.
Os Funkees entregam em “Akula owu onyera” uma visão muito própria do R&B americano guiada pelo que soa a um órgão Farfisa e com a voz encharcada em reverb, o som da modernidade na África Ocidental dos anos 70. Os metais e a guitarra cristalina da Harbours Band em “Kama mosi” já são mais devedores da tradição highlife, enquanto Mono Mono aproveita o break em “Eme kowa iasa ile wa” para divergir para território hendrixiano antes de voltar a colocar os pés na sua África. A diversidade de propostas é estonteante, o que também reafirma a imagem contrária de uma Nigéria a marchar sob um mesmo ritmo na primeira metade dos anos 70.
Na arqueologia, a capacidade de perspectivar civilizações inteiras a partir de fragmentos dispersos tem permitido construir vívidas imagens do passado. O que coleccionadores como Miles Cleret fazem não é muito diferente: por cada tema de músicos e bandas como os Anambra Beats, Celestine Ukwu, Sahara All Stars ou a Nigerian Police Force Band existirão dezenas que nunca conheceremos. “Nigeria Special” permite-nos imaginar ao que soariam.

(texto publicado originalmente no número 26 da revista Op.)

domingo, 8 de março de 2009

Jazz Bridges # 13: A bossa do jazz

Aos 50 anos, a Bossa Nova continua a ter uma memória fresca. A Blue Note volta a dar-lhe atenção…

Mais do que uma ponte, existe entre a bossa nova e o jazz um dedicado e já longo diálogo que neste ano das comemorações do meio século da nobre invenção de Jobim e Gilberto é naturalmente reavivado. Há agora no mercado duas interessantes compilações com carimbo Blue Note que ilustram bem o perfil dos dois interlocutores deste diálogo: “Blue Note Plays Bossa Nova” é um triplo cd com Lou Rawls, Hank Mobley, Lee Morgan, Nancy Wilson, Grant Green, Ron Carter, Chick Corea, Donald Byrd, Charlie Rouse, Stanley Turrentine, Cannonball Adderley ou Blossom Dearie; e “Platinum Collection Bossa Nova” é igualmente uma colecção que se estende por três cds e que reúne interpretações de Pery Ribeiro, António Carlos Jobim com Roberto Paiva, Dick Farney & Claudette Soares, Eumir Deodato, Marcos Valle, Elizeth Cardoso, João Donato, Milton Banana, Roberto Menescal e, entre outros, Wilson Simonal. Pode argumentar-se que ambos os lançamentos falham momentos importantes e históricos desse diálogo – por limitações de catálogo, num dos casos: Stan Getz gravou com João Gilberto para a Verve e Sinatra com Jobim para a Reprise. Do lado brasileiro destes lançamentos, a ausência directa de João Gilberto é mais difícil de compreender dada a sua ligação à Odeon, catálogo nas mãos da mesma EMI que controla a Blue Note… Ainda assim, pelo fôlego e qualidade do material reunidos, tanto “Blue Note Plays Bossa Nova” como “Platinum Collection Bossa Nova” são duas valorosas adições a qualquer discoteca pessoal que podem funcionar como resumo de universos específicos ou portas de entrada para não iniciados. Em ambos os casos, garante-se o mergulho num oceano de primorosas melodias tocadas por um ritmo que ajudou a definir uma época.
Em texto recente para o Expresso, o jornalista e escritor brasileiro Nelson Motta identifica o período de imposição da bossa nova no Brasil com a gestão do governo liberal de Juscelino Kubitschek quando o Brasil, “depois de ganhar pela primeira vez a Copa do Mundo de futebol, na Suécia, viveu um ciclo de progresso e desenvolvimento nunca visto, com a construção de Brasília em apenas quatro anos, a industrialização, a televisão, as novas estradas e fábricas: os brasileiros apaixonaram-se pelo futuro.” E para tal decidiram, nalguns casos, reinventar o passado à luz dos mais modernos desenvolvimentos. Foi certamente esse o caso da bossa nova: como indicava recentemente Gary Giddins no New Yorker, Jobim e Gilberto pertenciam a uma juventude moderna e sofisticada, educada nas subtilezas do bebop que se soltava das modernas estereofonias que equipavam os mais elegantes apartamentos de Copacabana. «Jobim,» garante Giddins, «encontrou uma forma de usar as harmonias do bebop como a base para as suas irresistivelmente líricas melodias.» E João Gilberto, que Caetano Veloso identifica como “o horizonte da criação musical popular brasileira”, despiu o samba de morro e Carnaval aproveitando apenas o seu lado mais intuitivamente rítmico e criou um “Chega de Saudade” eterno que em 58 se estreou em single com “Bim Bom” no lado B.
A bossa nova chegou agora aos 50 anos, mas no Brasil não resistiu tanto tempo: depois dos anos “dourados” de Kubitschek, a ditadura militar imposta em 1964 impeliu a música noutras direcções: o tropicalismo definiu-se como fonte de liberdade que levou inclusivamente ao exílio de alguns dos seus principais estetas, como Caetano, e a MPB reforçou o laço às origens. Aliás, a dada altura, até mesmo alguns dos artistas mais directamente ligados à bossa, como Marcos Valle ou Dori Caymmi e Carlos Lyra, procuraram libertar-se da “influência do jazz”, como dizia a canção, e ecoar escritos de teóricos como José Ramos Tinhorão que apelavam a um sentir mais declaradamente nacionalista.
Ao mesmo tempo que o samba procurava reconquistar espaço dentro da bossa, João Gilberto aprofundava as suas ligações ao jazz com o álbum de 1964 gravado em conjunto com Stan Getz, nos Estados Unidos. “Getz/Gilberto” bateu recordes de vendas, conquistou Grammys e impôs uma loucura generalizada pela bossa nos Estados Unidos, facto que talvez justifique que Ben Ratliff, do New York Times, se refira a Gilberto como um “estratega”. Jobim, claro, acompanhou Gilberto nesta imposição exterior da bossa nova, que de facto a tornou num som universal, e em breve estava a gravar ao lado de Sinatra, expoente máximo da sofisticação cool que a bossa também ecoava. As “obras primas de 3 minutos” (como lhes chamou Ratliff) de Jobim impuseram-se como telas em branco em cima das quais se podiam pintar diferentes quadros. O jazz americano, na sua contínua busca da expansão de idiomas, percebeu na bossa não só uma injecção desejável de exotismo tropical, mas também uma matéria prima moldável capaz de sublimar novas formas de pensar musicalmente. O jazz teve sempre uma paixão pela modernidade e em meados dos anos 60 poucas coisas eram mais modernas do que as balançadas melodias que chegavam do Brasil em catadupa, como se alguém tivesse, de repente, aberto as comportas de uma nova barragem musical.

sexta-feira, 6 de março de 2009

África Eléctrica # 21

The Underground Spiritual Game
é uma compilação de 2004 que celebra a obra de Fela Kuti e que mereceu total destaque na emissão # 21 do África Eléctrica. Frank "Voodoo Funk" Gossner assina o set que preenche a segunda hora. Boa audição:

África Eléctrica # 21 - 1ª hora

África Eléctrica # 21 - 2ª hora

quinta-feira, 5 de março de 2009

Chart 1: Lab Funk 9 + 1

Ok, primeira edição de posts com charts temáticas que conto ir elaborando a partir das novidades que vou adquirindo. Esta já tem um par de meses, foi criada a convite da Flur e procurava ilustrar a minha paixão por um determinado tipo de funk mais progressivo que nos últimos anos tem vindo a despontar lentamente. A propósito deixo por aqui também texto sobre o assunto escrito para a Op. (novo número em breve por aí...). Mas para já, então, Lab Funk 9 + 1.

LAB FUNK 9 + 1

mrr-adm – 012 (no label)
karl hector & the malcouns – transition >j< (now again)
dam funk – burgundy city (stones throw)
poets of rhythm – discern/define (quannum)
the natural yughurt band – voodoo (jazzman)
the budos band – up from the south (daptone)
whitefield brothers
– yakuba (field)
the heliocentrics – distant star (now again)
polyversal souls – sad nile (fryers)
+
mhe – 007 (sound in color)




Free funk

Quando Ornette Coleman se apresentou em quarteto no Five Spot Café de Nova Iorque no Outono de 1959 o público não podia imaginar o que o esperava. A aparente loucura expressa no mar de ruído produzido por quatro solos em simultâneo, sem estrutura ou ordem convencional que pudesse ser reconhecida, tinha também uma espessura política – o desejo de liberdade não existia apenas em relação às progressões harmónicas ou às bases rítmicas comuns no hard bop, mas em relação à própria vida – Fred Gioia, a propósito de 50 anos de free jazz, escreveu que “parte do fascínio exercido por esta música passava pelo seu estatuto marginal, pela sua exclusão das estruturas de poder da sociedade a que era suposto opor-se.” Ora, tendo em conta o “peso” histórico da palavra “free” fará então sentido usá-la em relação a outros géneros musicais? Free folk ou free rock são duas hipóteses avançadas em tempos recentes. Em ambos os casos, a palavra “free” parece traduzir uma vontade de ruptura, embora nem sempre estritamente musical: a “bagagem” (ética, política, filosófica ou até emocional...) que os géneros vão coleccionando torna-se por vezes incómoda para quem apenas pretende exprimir-se sem ter que estar permanentemente a consultar um “livro de estilo”.
O funk é um género onde a bagagem referida no parágrafo anterior é absolutamente crucial, sobretudo a emocional. A grande invenção de James Brown capitalizou desde o início na carga sexual manifestada na repetição, na força e no suor debitado pelos seus protagonistas – se a soul era espírito, o funk era corpo. Esta música possuiu sempre esse lado mais ritualístico e encenado, como uma manifestação pura de identidade – negra e bastante física, pois claro: “say it loud, i’m black and i’m proud”, “like a sex machine”... É por aí que (também) se deve entender o recurso à palavra funk por estetas como Juan Atkins ou Derrick May: mesmo na música que não vivia de um pulsar colectivo e que deslocava a disciplina da repetição para os circuitos integrados de máquinas com nomes de ficção científica (Drumulator, TR 808?...) era possível detectar sem grandes problemas o volume da tal bagagem. A manifestação de identidade e a encenação de novos rituais colectivos perante uma ideia particular de comunidade continuavam a ser coordenadas importantes. O funk mantinha a sua importância, como som, mas também como ideia.
A pergunta impõe-se, então: o que acontece quando se ignora a tal bagagem e se toma o funk como matéria de laboratório, rompendo com o “livro de estilo” seguido por todas as bandas – dos Dap Kings de Sharon Jones e Amy Winehouse aos Soul Investigators de Nicole Willis – que ajudaram a recolocar o funk na ordem do dia? “Untitled”, de MRR-ADM, um dez polegadas que conta com a colaboração de Malcolm Catto e onde todas as regras são quebradas pode muito bem ser a resposta para essa questão. Free funk (e psychedelic...) é o classificativo avançado no site discogs.com.
Pode parecer muito esotérico, mas MRR-ADM (o nome é a primeira regra quebrada – comparem-no a “Dap Kings” ou “Soul Investigators”...) é, na verdade, o conjunto de iniciais de Mike Raymond Russell e Adam Douglas Manella, até muito recentemente conhecidos como MHE. Esta dupla possui uma curiosíssima discografia espalhada essencialmente por compilações e alguns sete polegadas da Sound In Color, editora responsável por “Space shift”, a estreia a solo de Steve Spacek. Os títulos das suas produções são uma simples sequência numérica (segunda regra quebrada: onde estão palavras como “groove”, “grease”, “shuffle”, “skank” ou outros pedaços de calão que funcionam como sinónimos de ritmo?) e “Untitled” inclui novas peças entre “009” e “012” além de uma faixa bónus de Catto, só de bateria, a célula primal do funk. Elvin Jones, um dos arquitectos da bateria no free jazz, explicou a Valerie Wilmer que o papel do baterista é manter o tempo: “quer aches que o estás a fazer ou não, de uma forma ou de outra o baterista mantém sempre o tempo, quer consciente ou subconscientemente – ou inconscientemente – o baterista está a manter o tempo ou um tempo implícito. E isto independentemente do quão abstracto que possa parecer.” Até a revolução tem um ritmo.
Malcolm Catto há muito que mostra esta tendência para a abstracção: basta ouvir “Popcorn bubble fish” (2001) ou o posterior “Bubblefish breaks” (2002) editados na Mo’Wax para entender que a bateria sempre foi o interface de Catto com o espaço sideral. Antes dessas edições no selo de James Lavelle, Catto já havia marcado presença na cena nu-funk com os Soul Destroyers, gente do clássico e poderoso “Blow your top” (2000). Mais recentemente, Malcolm participou no colectivo de Connie Price, os Keystones (que editaram na Stones Throw), surgiu em palco com DJ Shadow (“Live! In tune and on time”) e posteriormente integrou os Heliocentrics que antes de editarem o seu incrível álbum de estreia (“Out there”, na Stones Throw, foi um dos melhores discos de 2007) serviram de mão de obra para “This time”, tema mais luminoso de “The outsider”.
Juntos, MRR-ADM e Catto protagonizam um dos mais sérios passos da nova geração funk em direcção ao futuro. Depois de retirada ao funk toda a carga cultural e histórica, resta a fundação: o tempo, no sentido musical do termo, a tal ideia de ritmo de que Elvin Jones falava. Nada mais parece importar e daí a completa ausência de informação na capa (a remeter para o anónimo território dos Library records e a quebrar com mais uma regra de ouro no mundo do funk onde uma forte identidade gráfica sempre foi requisito obrigatório) e o total despojamento do interior – não há títulos de temas (a numeração referida circula na net), informação de editora, logos, nada. Só três palavras surgem sobre o plástico que protege a capa: “Featuring”, “Malcolm” e “Catto”. Só a bateria importa. A bateria e farrapos de electrónica primitiva, o fuzz de guitarras em gestão mínima de recursos, o “reverb” limpo e clínico, como se tudo isto tivesse sido gravado num laboratório e não num daqueles estúdios onde as paredes já chegam para contar uma história.
“Untitled” é funk livre porque não exibe nenhuma intenção, não tem um programa, uma mensagem ou outro propósito aparente que não seja o descarnar da sua própria essência. E nesse sentido é uma pequena obra-prima, um gesto de corte radical e um rasgo de futuro. Tudo isto, em edição limitada de mil exemplares. Aqui: www.dirtydrums.com.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Moodymann: freaky motherfunker

Freaky! Palavra certa para quem nunca se deu bem com convenções de espécie alguma. Kenny Dixon Jr, aka Moodymann, lançou em Dezembro último mais uma amostra do seu génio: Det.riot 67 é um LP que explora o universo singular de Moodymann, cruzando uma visão pessoalíssima do house com uma gestão rítmica que é só sua, quase sempre do lado errado do contador de bpms, adoptando um passo que neste momento não é igualado por nenhum outro produtor. Det.riot 67 é também um objecto político, com a cadência marcial do tema título a suportar uma narrativa de época (a voz é, claramente, de um homem branco) que oferece uma perspectiva dos riots de Detroit de 1967 que obviamente não é a de Moodymann. Todo o pulsar do álbum é político: mesmo o carácter sexual de «Freeki Mutha Fucker» é político (a erupção de 67 coincide com o auge do orgulho negro, ameaça para a moral branca dominante). E é com classe que KDJ enquadra todas essas ideias: space disco, house mutante, guitarras incendiadas pelo espírito de Prince, funk suado e, uma vez mais, profundamente sexual.
Entretanto, já há novidade no hiper-activo campo de Moodymann: Another Black Sunday. A saga prossegue e aterra na Flur dentro de pouco tempo.

terça-feira, 3 de março de 2009

A nova velha África musical

Da África antropológica para a África arqueológica, da “world music” para o afrobeat e afro rock, da Real World para a Soundway: há uma nova velha África para descobrir, feita de vinil desenterrado por editores que são o resultado do improvável cruzamento entre o espírito aventureiro de Indiana Jones e o carácter obsessivo dos coleccionadores. Rui Miguel Abreu*


“Estou a ficar sem páginas em branco no meu passaporte,” escrevia, em Abril passado, Frank Gossner. “Nos últimos três anos atravessei fronteiras inter-africanas em mais de 50 ocasiões.” Estas poderiam ser as palavras de um atarefado funcionário das Nações Unidas, mas na verdade foram registadas num blog por um DJ alemão que esgotou o espaço para carimbos de visa no passaporte graças a uma inexplicável sede de música que o levou a viver incríveis aventuras durante a época em que habitou na Guiné. Gossner faz parte de uma nova classe de editores que está a alterar o tradicional olhar sobre África que se impôs desde que a expressão “World Music” foi criada para identificar um segmento do mercado discográfico mundial. Juntamente com Miles Cleret ou Samy Ben Redjeb, donos das editoras Soundway e Analog Africa, Frank é um dos responsáveis por se voltar a descobrir a África musical e urbana que existia antes dos melhores músicos do continente terem começado a apanhar aviões para Paris e Londres. A música africana disponível na série “Nigeria Special” da Soundway ou na compilação “Vampi Soul Goes To Africa” foi produzida quase sempre sem interferência exterior, segundo parâmetros técnicos e artísticos autenticamente africanos e sem pensar em circuitos internacionais de distribuição. Com poucas excepções – como Fela Kuti ou Tony Allen – a maior parte desta produção manteve-se secreta durante décadas. Até que estes autênticos exploradores a começaram a desenterrar das areias do tempo.
Até agora, imperava uma outra ideia de África, menos urbana e mais tradicional, menos eléctrica e mais acústica. Uma ideia que tem raízes na década de 60. Durante o Verão que agora terminou, completaram-se quatro décadas sobre a “expedição” de Brian Jones a Marrocos para gravar os Master Musicians of Jajouka. Joe Boyd, o histórico produtor americano que na década de 60 ajudou a cimentar a cena psicadélica em Londres envolvendo-se nas carreiras de gente como Nick Drake e na fundação do mítico clube UFO, expandiu as suas actividades para os terrenos da world music na década de 80. Recentemente, nas páginas do britânico The Guardian, Boyd apontava a terapêutica viagem do músico dos Rolling Stones às montanhas de Ahl-Srif como um importante momento fundador do conceito de “música do mundo”. Escreve o autor de “White Bicycles – Making Music in The 60s” (Serpent’s Tail, 2006) que, no que lhe diz respeito, o álbum registado por Jones na vila de Jajouka, editado pelos Rolling Stones em 1971, foi “a primeira gravação de world music”, acrescentando: “Jones foi o primeiro a pegar numa música exótica nos seus próprios e autênticos termos por nenhuma outra razão que não fosse o estar convencido que isso seria bom entretenimento para o exterior.”
Houve outras expedições famosas a África durante a década de 70: James Brown, Ginger Baker (baterista dos Cream), Roy Ayers e até Paul McCartney foram alguns dos que não resistiram ao apelo político-musical de Lagos durante o exercício do “presidente negro”, Fela Kuti. Todas estas viagens tiveram em comum um certo pendor antropológico – músicos do Ocidente que buscavam uma experiência de imersão numa realidade radicalmente diferente da que conheciam, visitando o Shrine de Fela com uma atitude provavelmente não muito distante daquela que equipa um cientista em visita a uma remota tribo amazónica. Dessa abordagem nasceram os códigos com que se regeu a imposição do mercado de world music, na década de 80: o encaixe de exemplos de pureza nos conceitos desenvolvidos pela indústria discográfica moderna animou boa parte de catálogos importantíssimos como os da Real World, Earthworks ou World Music Network. No entanto, como qualquer antropólogo concederá, basta apontar uma câmara para se alterar o objecto observado. Muita da música lançada nos catálogos acima enumerados foi captada em estúdios que obedeciam aos parâmetros modernos de qualidade sonora, sobretudo em França e Inglaterra. Tal como aconteceu com a construção da “primeira estrela do terceiro mundo”, Bob Marley, cujos álbuns tinham uma versão jamaicana e outra “ocidental” sendo para isso remisturados em estúdios ingleses, também esta “primeira” descoberta de África foi alvo de um “upgrade” tecnológico para se compatibilizar com os ouvidos educados na alta-fidelidade dos mercados europeu e norte-americano. O que era suficiente para uma edição em cassete vendida nas ruas de Dakar ou Lagos não servia, certamente, para um lançamento em CD disponível nas cadeias das “high streets” de Londres e Nova Iorque.
Frank Gossner (ver entrevista aqui ao lado), refere-se a este novo olhar editorial sobre África quando nos explica que “há um inimaginavelmente grande e excitante acervo de música em África que foi ignorado pelo mundo Ocidental durante décadas.” Parte da razão para esse desconhecimento talvez se possa adivinhar nas palavras de Orlando Julius, veterano da cena musical nigeriana que em 1966 lançou o explosivo “Super Afro Soul”, álbum que a editora espanhola Vampi Soul reeditou num luxuoso duplo CD muito recentemente: “Éramos uma banda de dez elementos e utilizávamos 8 microfones para gravar directamente para uma máquina de duas pistas stereo. Todas as canções eram gravadas ao vivo, sem ‘overdubs’, sem espaço para erros… quer dizer, havia alguns, mas nós transformávamos os erros numa marca de estilo!” Enquanto Orlando Julius convertia as imperfeições técnicas dos seus Modern Aces num traço único da sua identidade sonora, Brian Wilson criava em intermináveis sessões o clássico “Pet Sounds” utilizando quantos microfones queria num estúdio high-tech de Los Angeles equipado com gravadores de quatro e oito pistas. O contraste tecnológico extremo ajuda a explicar porque é que a música criada em África nesta época só muito esporadicamente conseguiu ultrapassar as fronteiras locais. Nicholas Addo Nettey, que tocou com Fela Kuti no ensemble Africa 70, confirma que “alguma da música produzida na Nigéria nos anos 60 e 70 era editada em França e Inglaterra, mas a maior parte era lançada apenas localmente.”
Além de gravar com os Africa 70 de Fela Kuti, Nettey também editou em nome próprio um daqueles discos que nunca ultrapassou as fronteiras da Nigéria e cuja limitadíssima edição original o transformou num tesouro literalmente impossível de descobrir. Frank Gossner, nas atribuladas viagens relatadas no blog voodoofunk.blogspot.com, conseguiu localizar o álbum e encontra-se presentemente a dar os retoques finais para uma reedição do LP perdido de Pax Nicholas & The Nettey Family na conceituada editora americana Daptone, a mesma de Sharon Jones e dos Dap Kings que tocam em boa parte das músicas do álbum “Back in Black” de Amy Winehouse. “Este é um dos meus discos favoritos de afrobeat,” explica Gossner. “Nicholas, que escreveu, compôs e produziu este disco, costumava tocar percussão nos Africa 70 e este LP certamente mostra alguma influência de Fela, mas na minha opinião vai ainda mais fundo do que o trabalho dele. As quatro faixas deste disco têm um toque de psicadelismo, são fortíssimas na pista de dança, mas também são excelentes para ouvir em casa, enquanto se fuma um bom cigarro. É uma gravação espantosa e única. O Nicholas é originário do Gana e agora vive em Berlim e está muito contente por ir ver este disco reeditado.” Nicholas Nettey confirma esse estado de alma e explica-nos que tem uma nova banda, Ridimtaksi, que tocará em Berlim no próximo dia 24 de Outubro: “tocamos apenas composições da minha autoria e estamos à procura de management.” Orlando Julius partilha o entusiasmo e também se mostra pronto para reentrar em cena: “A minha música está de novo aí, pela graça de Deus, e eu adorava voltar a fazer digressões. Tenho ainda muito para oferecer, os meus temas clássicos, mas também novas composições. E tenho uma banda super coesa e belíssimos dançarinos.”
Tal como Frank Gossner, o inglês Miles Cleret é igualmente um arquivista compulsivo que adoptou a abordagem arqueológica para erguer a Soundway, uma pequena editora que nos últimos meses registou uma actividade muito intensa com a edição das compilações “Nigeria Special – Modern High Life, Afro-sounds & Nigerian Blues 1970-76”, “Nigeria Disco Funk Special”, “Nigeria Rock Special” e ainda “Guitar Boy Superstar” de Sir Victor Uwaifo que se juntam no seu catálogo a títulos já editados há mais tempo de Mulatu Astatke (Etiópia), Geraldo Pino & The Heartbeats (Serra Leoa), T.P. Orchestre Poly-Rythmo (Benin) e ainda às compilações “Ghana Soundz” (dois volumes) e “Afro Baby”.
A série que lança luz sobre a década de 70 nigeriana tem a espessura de um tratado de antropologia, com os artefactos usados na elaboração dos alinhamentos cuidadosamente reproduzidos, sem descurar as marcas do tempo que os danificaram, tal como acontece com um vaso etrusco rachado que ainda assim tem lugar na vitrina de um museu. Cuidadosas anotações enquadram depois cada uma das entradas nestas compilações que permitem entender um pouco melhor o que o próprio Miles Cleret descreve como “a mais importante fase na história da música gravada na Nigéria.” “Há milhares de faixas de artistas populares e outros não tão populares que nunca foram editadas fora da África Ocidental. E é surpreendente,” escreve o editor nas notas de capa de “Nigeria Special”, “que um legado musical tão rico e variado como o da Nigéria, um país tão vasto, se tenha tornado tão esquecido e indocumentado em tão pouco tempo.” Frank Gossner adianta uma explicação para tal facto ao mesmo tempo que indica a Internet como fonte de mudança: “Em muitos países africanos existem apenas um par de jornais e normalmente são controlados pelo estado e em sítios como a Guiné, Serra Leoa ou Libéria não há sequer infra estruturas que permitam a impressão de livros. A disseminação de informação através da Internet vai mudar tudo nas próximas décadas.”
Enquanto na Nigéria ou no Gana o hip hop e derivações locais se impõem como um monopólio estético, o afrobeat vai encontrando quem lhe perpetue a chama na Europa e nos Estados Unidos. De certa forma, a mesma dinâmica que permitiu ao funk assistir a um renascimento está agora em marcha com o afrobeat. A mesma perspectiva arqueológica foi aplicada às incontáveis produções que nunca se fizeram notar para lá da longa sombra lançada por James Brown na América: editaram-se compilações de pérolas obscuras e não tardou muito para que selos como a Daptone ou a Soul Fire começassem a produzir versões contemporâneas do mesmo groove que no arranque dos anos 70 se ouvia em tudo o que era pequeno clube do interior do Texas ou da Flórida. Os Antibalas lideram, claro, este “regresso” a África, tal como tinha acontecido com os Poets of Rhythm no caso do funk.
Martin Perna, dos Antibalas (que já se chamaram Antibalas Afrobeat Orchestra), não tem dúvidas e afirma, peremptório, que existe, “definitivamente, um ressurgimento no interesse pelos grooves afro dos anos 70.” Quando questionado sobre quais os nomes fundamentais para se planear uma entrada no universo do afrobeat, Perna nomeia Orlando Julius, além dos inevitáveis Fela Kuti e do seu histórico e ainda plenamente activo baterista Tony Allen (que tocou este Verão no CCB). “A contribuição de Orlando Julius para a integração do jazz e do funk na música nigeriana foi enorme, embora bastas vezes ofuscada pela obra de Fela. Felizmente, muito do seu trabalho tem vindo a ser reeditado e isso permite-nos reavaliá-lo,” explica o líder dos Antibalas que também edita como Ocote Soul Sounds. E essa é uma ideia chave para este crescendo de actividade no plano das reedições de música urbana africana das décadas de 60 e 70: a reavaliação.
Fela foi durante muito tempo, no que à imprensa internacional dizia respeito, sinónimo de Nigéria. Na revista Wire, escrevia-se em 98, um ano após a sua morte, que a cena musical nigeriana dos anos 70 era comandada por companhias como “a EMI, Decca e Philips que dominavam o negócio da música na África ocidental editando sucedâneos de soul americano e o afrobeat patenteado por Fela.” Quase que se dá a entender que não havia nada no meio. Mas o trabalho de editoras como a britânica Soundway, a francesa Oriki Music ou a alemã Analog Africa tem permitido alterar a percepção do passado: por debaixo das poeiras do tempo e após cuidadosas escavações começa a surgir um mosaico de edições que revela a existência de uma vibrante cena musical que em condições adversas teve a capacidade de produzir um som perfeitamente único a que o presente parece finalmente fazer justiça. “À medida que o tempo vai passando,” escreve Miles Cleret nas notas que acompanham a edição de “Nigeria Rock Special”, ”as muitas camadas de produção musical registada por todo o mundo nas décadas de 60 e 70 continuam a ser exploradas e a revelar muitas e bem-vindas surpresas.”
Esse trabalho, como aconteceu com o funk, deve-se menos ao esforço de executivos bem informados que se limitam a licenciar músicas de catálogos convenientemente organizados do que à sede de aventura de uma nova classe de editores que não hesitam em meter uma mochila às costas para se lançarem à aventura nas ainda muito inexploradas avenidas musicais de países como o Gana, Nigéria, Togo, Serra Leoa, Benin ou Guiné. Samy Ben Redjeb, responsável pela etiqueta Analog Africa, descreve nas notas de capa da espantosa compilação “African Scream Contest” o que poderia ser o início de uma cena de um filme de Indiana Jones caso o respeitável arqueólogo usasse uma mala de DJ e um gira-discos portátil em vez de um chicote: “Estou no banco de trás de uma moto mesmo no centro de Cotonou, a maior cidade do Benin, a ziguezaguear por entre Zemidjans, táxis do mato, e muitas outras “ferramentas” de transporte. O condutor é nada mais, nada menos do que Melome Clement, fundador da lendária Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou. De vez em quando ele grita a plenos pulmões que gostaria de ter um carro de forma a eu estar mais confortável. Mal imagina ele que eu me estou a divertir como nunca na vida. E não consigo parar de me perguntar a mim mesmo como raio vim eu aqui parar.”




INDIANA GOSSNER


Frank Gossner é um DJ alemão que a partir do blog Voodoo Funk foi relatando incríveis aventuras que viveu enquanto se dedicava à procura de discos na Serra Leoa, Togo e Benim a partir de uma base de operações na Guiné, onde viveu durante três anos com a sua mulher, funcionária do Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão. Recentemente, Frank mudou-se – juntamente com uma impressionante colecção de discos – para Nova Iorque onde deu agora início a um programa de rádio na WFMU (http://www.wfmu.org/) e a uma noite Voodoo Funk no clube Santas (todas as quintas feiras) onde irá tocar, exclusivamente, peças encontradas durante a sua estadia em África. Paralelamente, Frank tem vindo a trabalhar com a cineasta Leigh Iacobucci na montagem do documentário “Take Me Away Fast” (trailer aqui) que ilustra as suas aventureiras expedições discográficas.
Acabou de chegar a Nova Iorque com uma tonelada de discos africanos. Já os mostrou a alguém?
Nova Iorque é a minha segunda casa. Mesmo quando vivia em África vinha sempre aqui passar uma semana e sempre que cá vinha tocava na principal noite de funk, a Bumshop. E de cada vez que o fiz foi um sucesso.
Porque é que acha que música criada há 3 décadas num continente distante continua a ser capaz de fazer as pessoas mexerem-se numa pista de dança?
Penso que vivemos numa era em que temos que ser capazes de admitir que a invenção não é tudo: temos que perceber que algumas das maiores realizações musicais já se encontram atrás de nós. Não quero com isso dizer que o que se faz agora não seja bom, mas o carácter destas velhas gravações africanas é tão único que é difícil imaginar algo de tamanha relevância cultural se volte a repetir. Muitas pessoas pensam que só havia Fela Kuti e que foi ele que inventou o afrobeat que há quem pense que se trata de uma mistura de funk de James Brown, jazz e música yoruba local. Bem, mas a verdade é que o James Brown era um africano na América e o que ele fazia era música africana. Fela só fechou o círculo. E havia centenas de bandas a gravar misturas muito particulares de funk africano e afrobeat. No Mali, Senegal, Gana, Togo, Benin e, claro, na Nigéria.
Qual a razão então para tamanha e tão convergente actividade no domínio das compilações com material africano da década de 70?
Há cada vez mais pessoas expostas a esta música e cada vez mais pessoas interessadas em ouvir mais música desta e isso leva-as a procurar este tipo de compilações. Editoras como a Analog Africa, Daptone, Soundway, Vampi Soul estão a fazer um trabalho meritório até porque pagam royalties aos músicos originais.
Em que ponto está o seu documentário?
Encontra-se ainda na fase de pós-produção. A realizadora Leigh Iaccobucci seguiu-me durante um mês inteiro no Togo e no Benin. Estivemos em alguns locais incríveis e encontrámos alguns dos velhos músicos que fizeram discos fantásticos e que nos ajudaram a contar a história por trás desta música.
Se alguém quiser dar atenção séria a esta música, que compilações e reedições sugere?
Bem, recomendaria que comprassem tudo o que saiu na Soundway: as compilações “Ghana Soundz” e a série “Nigeria Special” são essenciais. "African Scream Contest" é outra compilação muito boa e as antologias de Orlando Julius e de Fela Kuti na Vampi Soul também são essenciais. Coleccionar discos africanos originais é muito difícil e caro, mas até mesmo para um não DJ ter alguns originais poderia ser fantástico uma vez que têm designs incríveis tornando o próprio disco uma obra de arte e um artefacto. Já existe uma pequena mas significativa rede de coleccionadores internacionais que eu acho que vai crescer muito nos próximos anos.
O material mais importante já se encontra reeditado ou ainda há muito para descobrir?
A Soundway está a fazer um extremamente importante trabalho histórico e cultural. E eles têm feito bem mais do que apenas raspar a superfície e sei de fonte segura que eles têm ainda muito material incrível para futuras edições. Mas sim, continua a existir muita música para descobrir e eu penso que cada disco vendido por editoras como a Soundway é uma ajuda para que essas preciosidades venham a ser lançadas.
CINCO TESOUROS


Vários
Nigeria Rock Special
Soundway, distri. Sabotage


De tempos a tempos, a descoberta de certos artefactos faz os arqueólogos alterar suposições sobre antigas civilizações. O mesmo acontece no mundo da música: graças ao esforço de editores como Miles Cleret tornou-se recentemente evidente que nem só Fela ou afrobeat existiam na Nigéria dos anos 70. Com a visita de Ginger Baker, o baterista dos Cream de Eric Clapton que estabeleceu um estúdio em Lagos, a influência do rock e de figuras como Hendrix tornou-se mais clara, injectando fuzz e ácido nas guitarras normalmente cristalinas do highlife.

Vários
African Scream Contest
Analog Africa


Livro de 44 páginas profusamente ilustrado e carregado de anotações precisas que nos revelam imenso sobre El Rego et Ses Commandos, a Discafric Band, Les Volcans de la Capital ou a Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou, nomes que sempre que possível Samy Redjeb fez um esforço para encontrar, nem que para isso fosse necessário pagar anúncios em rádios locais do Benin. Há por aqui muitos ritmos hipnóticos, vocais expressivos e complexos arranjos de metais para nos prenderem a atenção por dias.

Vários
Nigeria 70 – Lagos Jump
Strut


A recentemente reactivada editora britânica Strut foi pioneira na atenção a África e editou belíssimos álbuns de Blo, Segun Bucknor, Tony Allen e Peter King antes de sair de cena em 2003. Uma dessas edições, datada de 2001, foi o massivo triplo CD “Nigeria 70 – The Definitive Story of 1970s Funky Lagos”. No regresso à actividade em 2008, a “marca” Nigeria 70 é recuperada com este “Lagos Jump” compilado por Duncan Brooker e anotado por John Collins.

Vários
Vampi Soul Goes to Africa
Vampi Soul


A Vampi Soul é uma editora espanhola com um impressionante trabalho ao nível da recuperação de fundos de catálogo na área da soul, funk e música latina (de Joe Bataan a Queenie Lyons e Ruth Brown). Recentemente, a Vampi Soul começou também a dar atenção ao continente negro e já leva excelentes edições de Tony Allen (“Afro Disco Beat”) e Fela Kuti (“Lagos Baby”) além de uma compilação de título “Highlife Time” (todos estes títulos ocupam duplos cds). Este “Vampisoul Goes To Africa” é uma espécie de sampler que resume material já editado e antecipa futuros lançamentos.

Kon & Amir
Off Track Vol. 2: Queens
BBE


Kon & Amir são uma dupla de diggers ligada ao universo do hip hop. Durante anos editaram compilações caseiras com o resultado das suas expedições de busca de discos e tornaram-se uma lenda entre os círculos de coleccionadores de funk. Recentemente, assinaram com a britânica BBE e começaram a série Off Track que agora chega ao segundo volume. Sempre atentos às tendências do “diggin’”, dão nesta compilação atenção ao modern soul e boogie dos anos 80 (Kon) e à música africana (Amir), explorando, em ambos os casos, a funcionalidade da música do ponto de vista do DJ.

(Artigo publicado no suplemento Ipsilon do Público em Outubro último.)

segunda-feira, 2 de março de 2009

Joe Bataan de regresso

«Call My Name» foi um dos melhores regressos de que há memória, certamente um dos melhores regressos no território soul funk. Acompanhado pelos Dap Kings dirigidos por Gabriel Roth, Joe Bataan gravou esse álbum nos estúdios da Daptone e deu aí uma lição indiscutível de classe, groove e alma. O senhor está de regresso agora com novo LP, uma vez que «Call My Name» insuflou nova vida na sua carreira. Tem, uma vez mais, edição da Vampi Soul (que já leva um catálogo interessante de edições de Joe Bataan, incluindo dois álbuns recheados de clássicos) e reúne Joe Bataan aos Los Fulanos, grupo que carrega a chama do espírito boogaloo no presente. Na página myspace dos Los Fulanos indicada atrás é possível ouvir a actualização da versão de Bataan para o clássico "The Bottle" de Gil Scott-Heron. Bataan já em 1975 tinha abordado este enorme tema - aliás, o novo álbum contém várias revisitações ao catálogo clássico deste artista. Tratando-se de Bataan a expectativa para o novo álbum só pode ser alta (embora retirar Roth da equação possa não ser uma boa ideia). Confirmaremos em breve se a ansiedade se justifica.

Fica aqui a lista de faixas do novo álbum:

1. Subway Joe
2. Mestizo
3. The Bottle
4. Johnny's No Good
5. Special Girl
6. Rap-O-Clap-O 2008
7. Latin Soul Square Dance
8. I Wish You Love
9. Gipsy Woman
10. Puerto Rico Me Llama
11. The Prayer (CD only)
12. It's a Good Feeling (CD only)

domingo, 1 de março de 2009

Rip it up # 2: Black Heat - The Jungle pt 1/The jungle pt 2

Em 1972, a música negra expressava orgulho nas origens africanas e "selva" passou a ser código para uma série de ideias - cidade, pressão, raíz. Sob certos aspectos este «In The Jungle» dos Black Heat é precursor dos muitos "it's like a jungle sometimes" que anos mais tarde o hip hop haveria de utilizar para descrever as "inner cities". Na prática, são cerca de 5 minutos de concentrado groove que integra as lições de James Brown num espírito ultra-militante. Na sala de ensaios dos Black Heat existia, de certeza, pelo menos um poster de Huey P. Newton.
O álbum de 1972 dos Black Heat foi uma das primeiras entradas na minha colecção de funk, no início dos anos 90, mas o single foi uma aquisição mais tardia. E este é um daqueles pedaços de groove que importa ter neste concentrado formato. Por isso, e sem mais delongas, aqui vai:

Black Heat - In The Jungle (pt 1)

Black Heat - In The Jungle (pt 2)