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segunda-feira, 22 de junho de 2009

Raridades jazz

Quem ainda elege o vinil como formato preferencial, sobretudo em oposição aos suportes digitais, partilha um daqueles segredos que todos conhecem mas de que poucos ainda se lembram: o que diz que a música também se vê. Para esses foi inventada a expressão "record porn", que traduz um imenso prazer obtido no visionamento de galerias cheias de discos raros. Nalguns casos ao prazer está associada também alguma dor (e também há um nome para isso, não há?...) por tantos desses discos serem praticamente inatingíveis. Ainda assim, o estudo atento das capas pode revelar muita informação - carácter gráfico de algumas editoras, nomes de intérpretes, marcas que o design ostentou em determinadas épocas. etc. Tudo coordenadas úteis para as missões de busca e salvamento no terreno. Toda esta conversa para apresentar um site recheado de incríveis capas de discos de jazz de todo o mundo: o site pertence à Birka Jazz, fabulosa loja sueca online que nos faz a todos desejar termos o mesmo ordenado que Cristiano Ronaldo. Associado a este site há um incrível arquivo carregado de informação visual de raras edições de jazz de vários pontos do globo. Vale muito a pena visitar.

E, já que aqui estamos, abaixo encontram um link para uma mix com este espírito, colocada no fórum Very Good Plus por Benjamin Hatton. Reza assim:

VOLUME ONE : DANCEFLOOR JAZZ AIN'T DEAD

This is the first in a series of mixtapes which seeks to explore various forms of music from a hip hop point of view.

VOLUME ONE : DANCEFLOOR JAZZ AIN'T DEAD

Volume One nods its head to the vibrant and much celebrated jazz dance scene of the late eighties and early nineties, and will hopefully uncover some real musical gems from the sixties and seventies from all points of the globe (Sweden, Japan, Hungary, Canada, Germany, Italy, Argentina etc.).

Rather than funk and soul, I feel that straight ahead jazz has been overlooked in the hip hop world in recent years. Hey maybe that's a good thing! So anyway I've tried to switch up the styles and give you a taste of some big band, bossa nova, latin jazz, hard-hitting fusion.... and some zulu moments where possible!!


VOLUME ONE : DANCEFLOOR JAZZ AIN'T DEAD Mix

domingo, 22 de março de 2009

Jazz Bridges # 14: Hip hop loves jazz

O hip hop e o jazz são duas culturas muito distintas, mas que partilham muito mais do que a mesma nacionalidade.


A reflexão sobre a linha que liga o jazz ao hip hop talvez seja o subtexto mais constante desta coluna. Desde o já longínquo texto sobre David Axelrod até ao artigo sobre a compilação “Droppin’ Science” da Blue Note, passando pelos olhares lançados sobre Madlib e Donald Byrd, tem importado por aqui analisar essa porta de entrada na memória do jazz que o hip hop nitidamente oferece. Mas como é mais do que óbvio, o jazz não é apenas memória e o hip hop até tem contribuído para que não seja matéria de museu, provocando muito provavelmente acesas discussões nos jantares de Natal do clã Marsalis, quando Wynton e Branford se sentam à mesma mesa. Sobre o vibrante presente tratam muitas das páginas que se seguem, e aqui na Jazz Bridges quando se espreita o calendário actual é quase sempre para perceber como foi afectado pela memória – ou memórias, não há apenas uma… - de uma determinada escola da história do jazz.
O jazz importou ao hip hop desde o início. Como o bop no particular microcosmos da Minton’s Playhouse, também o hip hop beneficiou de um nascimento em “circuito fechado”, nas festas de um destroçado Bronx dos anos 70 onde o disco sound que abalava as estruturas de Manhattan foi despido de todo o seu glamour até ao osso rítmico que traduzia urgência, vigor, orgulho e isolamento. O hip hop estreou-se em vinil em 1979, mas os primeiros passos estéticos foram dados com bandas em estúdio a emularem o gesto repetitivo dos djs. Só quando os primeiros samplers se tornaram amplamente disponíveis no mercado, a partir de 1987, é que se ergueu a figura do produtor e as aproximações ao universo do jazz começaram a ser regulares.
Como é óbvio – e para lá da discussão dos direitos de autor, que aliás pode nem fazer sentido no contexto de uma linguagem que também se ergueu a reinventar peças alheias – a questão da apropriação do jazz pelo hip hop é, sobretudo, cultural, por muito que isso custe ao senhor Wynton.
Quando os produtores pioneiros levaram para casa samplers como o SP1200 da EMU, os primeiros discos onde procuraram excertos para animar as suas criações eram os que existiam disponíveis no lar paterno. E se o código postal do produtor em questão o situava num dos “boroughs” negros da Nova Iorque dos anos 80, o mais natural era que entre as colecções herdadas dos progenitores se encontrassem títulos reveladores da sua identidade pós-Civil Rights Movement: o soul de Aretha, o funk de James Brown e Sly Stone, o proto-disco das produções de Gamble & Huff efectuadas a partir de Filadélfia, as canções de protesto ritmicamente sofisticadas dos O’Jays (“Back Stabbers”) e dos Temptations (“Message From a Black Man”), mas também, claro, uma alargada selecção do jazz que tocava nas rádios: Miles e Lou Donaldson, Cannonball Adderley e Donald Byrd, Herbie Hancock, Jimmy Smith, Grant Green e até, talvez, num lar mais “aventureiro”, um pouco de Coltrane, Yusef Lateef, Pharoah Sanders ou Eric Dolphy.
O jazz atraiu os produtores logo desde o primeiro momento: em 1988, os Gang Starr de Guru samplavam Charlie Parker em “Words I Manifest” e os Stetsasonic apoiavam-se em Lonnie Liston Smith para construir “Talkin’ All That Jazz”. A tendência acentuou-se com a entrada nos anos 90, descobrindo o hip hop de recorte “jazzy” um natural aliado na corrente “acid jazz” nascida em Londres. Não se pense, no entanto, que a ligação do hip hop ao jazz era meramente oportunista e facilitada pela tecnologia que permitia pegar numa frase de piano de Herbie e repeti-la sobre um padrão rítmico de Bernard “Pretty” Purdie. O fascínio do jazz era mais fundo – se um lado do hip hop é programado e calculado – o do suporte rítmico – outro há que apela à invenção: o freestyle do MC favorece a livre associação de ideias, a ginástica com a sintaxe, um pouco como acontece quando um solista de jazz desenvolve a ideia contida num standard. O scratch do DJ também reforça essa ligação ao espírito do jazz: Herbie Hancock nos anos 80 chamou aliás Grandmixer DST para o álbum “Future Shock” e fez dele uma peça central nos seus espectáculos ao vivo, passo “exótico” à época, mas hoje perfeitamente normal – são já muitos os ensembles de jazz que integram manipuladores de gira-discos.
Duas décadas após as primeiras abordagens ao jazz por via do sampler, e depois de incontáveis voltas que viram o hip hop transformar-se numa cultura e num negócio de escala global, as ligações entre as duas correntes continuam fortes. Disso mesmo deu conta no número passado da Jazz.Pt Alberto Mourão na sua recensão crítica ao álbum do projecto nacional Rocky Marsiano, que traduz uma tendência de sincretismo recente que procura a ultrapassagem do mero plano do sampling para a interacção directa com músicos que ajudam assim o hip hop a descolar do plano da citação para o mais interessante desafio da criação e da invenção. O projecto Liquid Crystal do produtor de hip hop J Rawls, as Sound Directions e o Yesterdays Universe de Madlib e, sobretudo, “Clin d’Oeil”, álbum recente de um trio de produtores franceses que recupera a iconografia da editora norte-americana Black Jazz e convoca para estúdio músicos franceses e MCs americanos para o mais entusiasmante momento de regresso à intersecção da matéria-prima jazz com a perspectiva hip hop, são sinais claros de que a cultura nascida no Bronx continua interessada no som da liberdade pura.

(texto publicado originalmente na revista jazz.pt)