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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Honest Jon's: entre o passado e o futuro

A Honest Jon’s é uma das lojas de discos de referência em Londres. Nos últimos anos, através de uma associação a Damon Albarn dos Blur, transformou-se igualmente numa das mais interessantes editoras com uma actividade que une as coordenadas do espaço e do tempo num brilhante catálogo.

A realidade é clara: a música tem vindo a mudar-se com crescente velocidade para um plano incorpóreo, onde existe liberta de uma dimensão física. As novas tecnologias subjugaram a música a uma nova ordem de ideias – reduzida à dimensão de “conteúdo”, a música é apenas mais um dos vectores onde assenta o verdadeiro negócio: o da comercialização de peças de hardware crescentemente sofisticadas e com cada vez maiores capacidades de “memória” e de espaço de armazenamento. Essa “memória”, no entanto, tende a apagar o carácter da música reduzindo-a toda a uma condição meramente funcional. Nesta passagem a outro plano de existência, a música tem perdido a sua própria memória: desaparecem as molduras gráficas que são reduzidas a minúsculos ícones, desaparecem as “liner notes” que são transformadas em hiperligações, desaparece o contexto. Em tempos idos, a indústria do Hi-Fi era orientada para o consumidor no pressuposto de que permitiria retirar o maior prazer possível da música. Mas hoje essa ordem natural alterou-se e é a música que parece orientada como mais uma forma de retirar o maior prazer possível do iPhone ou do iPod.
E é exactamente por isso que a actividade de editoras como a Honest Jon’s (www.honestjons.com) resulta tão crucial. Com distribuição assegurada em solo nacional pela Flur (www.flur.pt) , esta editora oferece várias portas de entrada para um universo onde as fronteiras de espaço e tempo são diluídas e onde o prazer da descoberta é acentuado.
O interessante neste catálogo é, precisamente, a sua liberdade: não existe uma linha nítida de exploração de uma ideia de Groove, como acontece na Soul Jazz, e muito menos um foco exclusivo numa estética ou numa região geográfica, como acontece nos catálogos da Soundway ou da Analog Africa. O fio condutor que une as diversas entradas no espantoso catálogo da Honest Jon’s é feito de outro impulso: entre a exploração do espaço protagonizada pelo recente exercício do Moritz Von Oswald Trio e o mergulho nos arquivos do Congo para «The World Is Shaking – Cubanismo From The Congo 1954-1955» vai uma incomensurável distância. Dois mundos, duas épocas, duas estéticas completamente diferentes. Práticas, ferramentas, atitudes quase opostas. Mas uma idêntica vontade: a de traduzir o seu próprio mundo, a de inscrever a sua época num devir histórico mais amplo. A Honest Jon’s é uma editora discográfica, mas poderia ser uma colecção privada de fotografia, tal a vontade que tem de documentar um mundo em permanente mudança. É a mesma vontade que anima os excelentes Hypnotic Brass Ensemble, colectivo que une as galáxias de Sun Ra, Fela Kuti e James Brown com o mesmo fôlego anímico que define os sons que se desprendem das «Open Strings» - onde passado e presente são aliás colocados em rota de colisão por via de respostas dadas por contemporâneos como Sir Richard Bishop a gravações de arquivo datadas dos anos 20.
A abordagem da Honest Jon’s à construção de um catálogo não deve ser analisada sem se considerar que o ponto de partida para esta aventura se encontrou, precisamente, nas prateleiras da loja de Portobello Road aberta desde os anos 70. Foi nessa loja que um jovem James Lavelle começou a trabalhar e terá sido ao dono que pediu as mil libras com que deu início à aventura Mo’ Wax. Porque ninguém consegue olhar para o stock de uma loja sem imaginar o que lhe poderia acrescentar. Desse manuseamento físico nascem as vontades que depois servem de base a aventuras como a que a Honest Jon’s agora protagoniza. A construção de um mundo onde a música – e não os artefactos que a permitem ler – ocupa o verdadeiro centro e justifica tudo o resto. Entre o Congo, Baghdad, Nova Iorque e Berlim ou entre a década de 20 do século passado e o presente não há fronteiras, nem distâncias. Cada uma dessas coordenadas é uma porta representada por um número de catálogo na Honest Jon’s: é possível cruzar todas essas portas ao mesmo tempo e beber a informação e a música contida em cada um dos lançamentos que a Flur agora disponibiliza entre nós. Segurando na mão capas que são completamente relevantes para a fruição do todo, deixando os olhos sorver a informação nelas contidas. Entendendo que a música não se pode reduzir a um ficheiro despido de toda a sua bagagem – e como se pode viajar sem bagagem?

(Texto publicado originalmente na revista Parq)

sábado, 1 de agosto de 2009

Honest Jon's na Flur

Algures este ano cumprem-se 25 anos sobre a epifania que me fez chegar à música de forma mais... digamos, intensa. Um vídeoclip de «Song to The Siren» (no Vivamusica?...) permitiu de alguma forma encaixar as minhas aproximações anteriores e tudo começou a fazer mais sentido. Apontou a direcção e facilitou a chegada a um universo indie que, na verdade, disparava em todas as direcções. E cá estou hoje, a escrever depois de uma noite na cabine do clube Ouriço, na Ericeira, suficientemente dilatada para permitir viajar por The Clash, Prince, Nirvana, PigBag, Chaka Demus & Pliers, Heróis do Mar, Gino Soccio, Sylvester, Timbaland, Talking Heads, Miami Sound Machine, James Brown, Spandau Ballet, Lady Gaga e muito sinceramente um par de guilty pleasures que não me atrevo a inscrever aqui (para além da referida lady...).
E para que serve tamanho preâmbulo? Para vos chamar a atenção para o facto da Flur ter passado a representar no "mercado" nacional a belíssima Honest Jon's. A Honest Jon's é uma instituição: era nesta loja de Portobello Road (onde me lembro muito distintivamente de comprar um disco de Harlem River Drive há mais de 15 anos) que trabalhava James Lavelle e terá sido ao dono, o honesto Jon (que, graças ao comentário do Pedro eu sei agora que se chama Alan), que James terá pedido mil libras emprestadas para fundar a Mo' Wax, com apenas 18 anos de idade. Jon entretanto alargou a experiência da loja para uma label, tal como a Soul Jazz antes de si. Com o envolvimento do verdadeiro "globe trotter" Damon Albarn (curiosa a ligação de estrelas pop a labels com que por vezes não seriam imeditamente associados - já Mick Hucknall, dos Simply Red, por exemplo, tinha ajudado a financiar a crucial Blood & Fire), a Honest Jon's criou um impressionante catálogo, que agora está ao alcance de uma viagem de metro até Santa Apolónia (e essa é apenas a mais divertida opção, uma vez que a distribuição Flur certamente fará chegar estes preciosos objectos até outros postos).
E agora, a parte que fará o primeiro parágrafo parecer mais do que um desvio sem sentido. No catálogo da Honest Jon's, e para citar apenas alguns exemplos mais recentes, encontram-se recolhas efectuadas na Bagdad dos anos 20, descargas na nu yorica dos anos 70, mergulhos nas comunidades africanas da Londres de finais da década de 20 do século passado, passagens por Lagos, na Nigéria, ou pelas ruas da Nova Iorque de Moondog e uma generosa reinvenção do futuro conduzida pelo trio de Moritz Von Oswald. Passado, futuro, presente; África, América, Europa; um olhar generosamente inclusivo sobre culturas, práticas, abordagens e estéticas que só aparentemente estão desligadas umas das outras. O que eu aprendi nestes 25 anos - e muito à custa de um par de disparates cometidos quando a idade ainda não me permitia perceber opções de relacionamento com a música como a que é enunciada pela Honest Jon's e que me levaram a desfazer-me de discos que eu achava que não poderiam partilhar espaço com outros... (e lá terei eu que voltar a comprar Pavement outra vez) - é que tudo está ligado e que não há compartimentos estanques. Ideia simples, mas a que esta indústria tem sido mais resistente do que será (agora) compreensível. Talvez nesta época de redifinição de paradigmas se venha a perceber que o caminho enunciado pela Honest Jon's - de redescoberta de memória passada e de construção de memória futura - é o único caminho válido. Porque praticamente toda a música que editam é, de facto, extraordinária.