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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Verve Originals: a febre latina

Em 1961 Norman Granz vendeu a Verve à MGM e Creed Taylor (o “c” e o “t” da CTI) foi recrutado para dirigir o selo. Carregado de energia depois de ter estabelecido a Impulse na ABC, Taylor tomou uma série de decisões executivas de imediato – nomeadamente a contratação agressiva de alguns nomes de peso, como Stan Getz ou Bill Evans – e apontou o seu catálogo ao grande público. Nesta era, ainda antes dos Beatles redefinirem as coordenadas da indústria musical, a divisão era clara: rock and roll era coisa de adolescentes e o jazz a música de adultos responsáveis. Sobretudo “este” jazz. Alheio às revoluções estéticas que sacudiam o jazz nesta época, Creed Taylor delineou uma estratégia que colocava claramente o lucro antes da arte e o impacto antes da invenção. Com o público americano ainda imerso numa ideia muito particular de exotismo – bem expressa nas “febres” do Mambo ou na “tiki culture” que celebrava toda a ilha que tivesse um vulcão e nativas com saias de palha – Taylor apontou as suas armas à bossa nova que ecoava nos apartamentos do Rio de Janeiro e foi um dos responsáveis por trazer o género para a América. Ponta de lança no seu catálogo para essa missão? Stan Getz. Aproveitando o facto de Charlie Byrd ter regressado de uma digressão pelo Brasil apoiada pelo Departamento de Estado americano, Getz iniciou em 1962 uma série de gravações que se revelariam chave para impor a bossa nova nos Estados Unidos, a primeira das quais “Jazz Samba”, com a participação de Byrd.
A série Originals da Verve deixa agora bem claro esse namoro com as sonoridades latinas ao disponibilizar um conjunto de títulos onde essa linha é explorada em diversas frentes. Do período “brasileiro” de Getz, foi reeditado o enorme “Big Band Bossa Nova”, gravado no Verão de 1962. Com excepção do balanço proporcionado pela pandeireta e pela cabaça, executados por José Paulo e Carmen Costa, todos os outros instrumentos são executados por músicos americanos (Jim Hall estabelece a ligação directa à bossa do Rio com a sua guitarra), deixando bem claro que esta era uma leitura jazz de um universo novo, o que até pode soar como um choque ao apostar no encaixe do intimismo da bossa na larga escala de uma big band. O álbum abre com a belíssima “Manhã de Carnaval” de Luiz Bonfá (que não demoraria ele próprio a gravar para a Verve) e por entre uma série de composições de Gary McFarland, que orquestra o disco com profundo bom gosto, há ainda tempo para incluir peças dos mestres Jobim e Gilberto, “Chega de Saudade”, “Samba de Uma Nota Só” e “Bim Bom”, entregues com swing, elegância e panache. E Getz soa grande nestas gravações, pleno de lirismo nas suas divagações apaixonadas.
Em Dezembro de 1962, Luiz Bonfá foi chamado a Nova Iorque para registar mais uma entrada no catálogo da Verve devotada à bossa nova. Com Lalo Schifrin ao piano e a “ajuda” do guitarrista Óscar Castro-Neves, Bonfá desfila charme por 12 miniaturas profundamente líricas (temas de dois minutos em álbuns de jazz devem ser raros…). O autor do standard Manhã de Carnaval impressionou certamente com a sua actuação no festival de bossa nova que o Carnegie Hall recebeu em Novembro de 62, pois no final de Dezembro estava em estúdio a gravar um álbum onde os seus três lados – o de cantor, o de guitarrista e o de autor – são explorados num conjunto admirável de composições (11 das 13 têm a sua assinatura).
Lalo Schifrin, pianista argentino celebrado nos Estados Unidos pela sua extensa obra no campo das bandas sonoras (de “Missão Impossível” ao clássico de Bruce Lee “Enter The Dragon”, são muitos os scores para filmes de acção com a marca Schifrin), gravou igualmente uma série de aproximações ao balanço do Rio De Janeiro, incluindo este “Piano Strings and Bossa Nova”, de 1962, registado pouco tempo depois de ter deixado a companhia de Dizzy Gillespie, com quem trabalhou durante dois anos como pianista e arranjador. Schifrin é um músico com uma extrema sensibilidade rítmica e um vasto domínio de linguagens e tradições, o que lhe confere perfeita autoridade para abordar o universo da bossa, que entende como uma tela em branco que lhe permite expor o seu lado mais introspectivo. O resultado é, pois claro, intensamente brilhante.
“Cal Tjader Plays The Contemporary Music of México and Brazil” é outra entrada de peso na série Originals. Vibrafonista sólido, Tjader trabalhou com navegantes do “third stream” como Dave Brubeck e George Shearing, mas nos anos 50 o trabalho de Tito Puente e Machito em Nova Iorque atraiu-o irremediavelmente para a esfera latina onde revelou uma natural fluidez, encaixando-se na perfeição por cima das descargas rítmicas executadas pelos músicos latinos com quem ia colaborando (notáveis como Eddie Palmieri ou Mongo Santamaria). Neste álbum, Tjader atravessa a fronteira duas vezes, para o México e para o Brazil, em busca de exotismo que explora com classe, não revelando no entanto o rasgo que marcaria o seu maior êxito, “Soul Sauce”, de 64: há por aqui trabalho, mas Tjader nunca chega a largar um pingo de suor, tudo é mais contido do que o reportório pedia.
Mais “out” é sem dúvida o álbum de Willie Bobo, “Bobo Motion”. Mestre de todas as coisas “boogaloo”, Bobo tocou juntamente com Mongo Santamaria no Modern Mambo Quintet de Cal Tjader e emprestou os seus ritmos a notáveis como Tito Puente ou Dizzy Gillespie. Neste álbum, o declarado sonho de Willie de criar “a perfeita mistura de jazz, música latina, pop, rock e rhythm n’ blues” está claramente em marcha, levando a música mais para os clubes de dança e menos para os salões frequentados por Tjader ou Schifrin. Em “Evil Ways” Bobo prenuncia mesmo o futuro som da Nova Iorque latina – ritmos lentos, mas pesados, plenos de sensualidade, onde o jazz, os modos latinos e o r&b se cruzam sem vergonha.
Finalmente, o lote latino das mais recentes reedições da Originals, fecha-se com outro peso pesado: o pianista Ramsey Lewis que surge aqui com “Goin’ Latin”. A base é fornecida pelo trio que forma com Cleveland Eaton no baixo e Maurice White (que alcançaria uma desmedida fama nos anos 70 como vocalista e líder dos Earth, Wind & Fire!!!) na bateria. Este é também o mais tardio registo deste grupo de reedições: em 1967 outras revoluções de carácter social estavam em marcha e isso manifesta-se no peso de temas como “One, Two, Three” e na entrega a baladas como “Free Again”, sentindo-se Lewis igualmente à vontade em ambos os registos. O facto de ter encimado tabelas de vendas com trabalhos como “The In Crowd” ou “Wade in the Water” serve para atestar o facto de Lewis ter sido sempre um comunicador, qualidade que nunca sacrificou em detrimento de algum desejo mais exploratório. Uma vez mais, é música que soa melhor num clube do que num salão e aqui sim, percebe-se que há pingos de suor a sublinharem uma entrega mais física.

Stan Getz
Big Band Bossa Nova
Verve


Stan Getz (saxofone tenor); Bernie Glow, Doc Severinsen (trompete); Ray Alonge (trompa), Tony Studd, Bob Brookmeyer (trombones); Ed Caine, Gerald Safino (flautas); Ray Beckenstein, Romeo Penque (clarinetes); Hank Jones (piano); Jim Hall (guitarra); Tommy Williams (baixo); Johnny Rae (bateria); Carmen Costa, José Paulo (percussões); Gary McFarland (arranjos).
Nova York, 27 de Agosto, 1962

Luiz Bonfá
Bossa Nova
Verve


Luiz Bonfá (guitarra, voz); Leo Wright (flauta); Oscar Castro Neves (piano, orgão); Iko Castro Neves (baixo); Roberto Pontes Dias (bateria); Henri Percy Wilcox (guitarra eléctrica); Maria Toledo (voz); Lalo Schifrin (piano, arranjos).
Nova Iorque, 30 e 31 de Dezembro, 1962

Willie Bobo
Bobo Motion
Verve

Willie Bobo (percussão); Bert Keyes & Sonny Henry (arranjos).
Nova Iorque, 1967

Cal Tjader
Cal Tjader plays the Contemporary Music of Mexico and Brazil
Verve


Cal Tjader (vibrafone); Freddie Schreiber (baixo); Johnny Era (tímbales e bateria); Chonguito (congas); Clare Fischer (piano e arranjos); Ardeen deCamp (voz); John Lowe, Don Shelton, Paul Horn, Gene Sipriano (sopros); Milt Holland (percussão), Laurindo Almeida (guitarra).
Hollywood, 5, 6 e 7 de Março de 1962

Ramsey Lewis
Goin’ Latin
Verve


Ramsey Lewis (piano); Cleveland Eaton (baixo); Maurice White (bateria)
Chicago, 21, 22 e 23 de Dezembro de 1966

Lalo Schifrin
Piano, Strings and Bossa Nova
Verve


Lalo Schifrin (piano, arranjos); Chris White (baixo); Rudy Collins (bateria); Jim Hall (guitarra); Carmen Costa, José Paulo (percussões).
Nova Iorque, 23 e 24 de Outubro de 1962

domingo, 8 de março de 2009

Jazz Bridges # 13: A bossa do jazz

Aos 50 anos, a Bossa Nova continua a ter uma memória fresca. A Blue Note volta a dar-lhe atenção…

Mais do que uma ponte, existe entre a bossa nova e o jazz um dedicado e já longo diálogo que neste ano das comemorações do meio século da nobre invenção de Jobim e Gilberto é naturalmente reavivado. Há agora no mercado duas interessantes compilações com carimbo Blue Note que ilustram bem o perfil dos dois interlocutores deste diálogo: “Blue Note Plays Bossa Nova” é um triplo cd com Lou Rawls, Hank Mobley, Lee Morgan, Nancy Wilson, Grant Green, Ron Carter, Chick Corea, Donald Byrd, Charlie Rouse, Stanley Turrentine, Cannonball Adderley ou Blossom Dearie; e “Platinum Collection Bossa Nova” é igualmente uma colecção que se estende por três cds e que reúne interpretações de Pery Ribeiro, António Carlos Jobim com Roberto Paiva, Dick Farney & Claudette Soares, Eumir Deodato, Marcos Valle, Elizeth Cardoso, João Donato, Milton Banana, Roberto Menescal e, entre outros, Wilson Simonal. Pode argumentar-se que ambos os lançamentos falham momentos importantes e históricos desse diálogo – por limitações de catálogo, num dos casos: Stan Getz gravou com João Gilberto para a Verve e Sinatra com Jobim para a Reprise. Do lado brasileiro destes lançamentos, a ausência directa de João Gilberto é mais difícil de compreender dada a sua ligação à Odeon, catálogo nas mãos da mesma EMI que controla a Blue Note… Ainda assim, pelo fôlego e qualidade do material reunidos, tanto “Blue Note Plays Bossa Nova” como “Platinum Collection Bossa Nova” são duas valorosas adições a qualquer discoteca pessoal que podem funcionar como resumo de universos específicos ou portas de entrada para não iniciados. Em ambos os casos, garante-se o mergulho num oceano de primorosas melodias tocadas por um ritmo que ajudou a definir uma época.
Em texto recente para o Expresso, o jornalista e escritor brasileiro Nelson Motta identifica o período de imposição da bossa nova no Brasil com a gestão do governo liberal de Juscelino Kubitschek quando o Brasil, “depois de ganhar pela primeira vez a Copa do Mundo de futebol, na Suécia, viveu um ciclo de progresso e desenvolvimento nunca visto, com a construção de Brasília em apenas quatro anos, a industrialização, a televisão, as novas estradas e fábricas: os brasileiros apaixonaram-se pelo futuro.” E para tal decidiram, nalguns casos, reinventar o passado à luz dos mais modernos desenvolvimentos. Foi certamente esse o caso da bossa nova: como indicava recentemente Gary Giddins no New Yorker, Jobim e Gilberto pertenciam a uma juventude moderna e sofisticada, educada nas subtilezas do bebop que se soltava das modernas estereofonias que equipavam os mais elegantes apartamentos de Copacabana. «Jobim,» garante Giddins, «encontrou uma forma de usar as harmonias do bebop como a base para as suas irresistivelmente líricas melodias.» E João Gilberto, que Caetano Veloso identifica como “o horizonte da criação musical popular brasileira”, despiu o samba de morro e Carnaval aproveitando apenas o seu lado mais intuitivamente rítmico e criou um “Chega de Saudade” eterno que em 58 se estreou em single com “Bim Bom” no lado B.
A bossa nova chegou agora aos 50 anos, mas no Brasil não resistiu tanto tempo: depois dos anos “dourados” de Kubitschek, a ditadura militar imposta em 1964 impeliu a música noutras direcções: o tropicalismo definiu-se como fonte de liberdade que levou inclusivamente ao exílio de alguns dos seus principais estetas, como Caetano, e a MPB reforçou o laço às origens. Aliás, a dada altura, até mesmo alguns dos artistas mais directamente ligados à bossa, como Marcos Valle ou Dori Caymmi e Carlos Lyra, procuraram libertar-se da “influência do jazz”, como dizia a canção, e ecoar escritos de teóricos como José Ramos Tinhorão que apelavam a um sentir mais declaradamente nacionalista.
Ao mesmo tempo que o samba procurava reconquistar espaço dentro da bossa, João Gilberto aprofundava as suas ligações ao jazz com o álbum de 1964 gravado em conjunto com Stan Getz, nos Estados Unidos. “Getz/Gilberto” bateu recordes de vendas, conquistou Grammys e impôs uma loucura generalizada pela bossa nos Estados Unidos, facto que talvez justifique que Ben Ratliff, do New York Times, se refira a Gilberto como um “estratega”. Jobim, claro, acompanhou Gilberto nesta imposição exterior da bossa nova, que de facto a tornou num som universal, e em breve estava a gravar ao lado de Sinatra, expoente máximo da sofisticação cool que a bossa também ecoava. As “obras primas de 3 minutos” (como lhes chamou Ratliff) de Jobim impuseram-se como telas em branco em cima das quais se podiam pintar diferentes quadros. O jazz americano, na sua contínua busca da expansão de idiomas, percebeu na bossa não só uma injecção desejável de exotismo tropical, mas também uma matéria prima moldável capaz de sublimar novas formas de pensar musicalmente. O jazz teve sempre uma paixão pela modernidade e em meados dos anos 60 poucas coisas eram mais modernas do que as balançadas melodias que chegavam do Brasil em catadupa, como se alguém tivesse, de repente, aberto as comportas de uma nova barragem musical.